Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os santos também pecam...



Quem algum dia, em seus mais juvenis desejos, não se imaginou nesta situação - ser uma americano (principalmente jovens brasileiros...), bilionário, desportista, morando em um palácio, com uma bela mulher, filhos, fama, posses, tranquilidade... Que mais desejaria um homem neste mundo? Eu respondo - o fruto proibido. Está na nossa natureza, diriam os judeus e cristãos, desejar aquilo que não nos foi dado. Mas o que mais poderia desejar um homem que já possui tudo isso? Novamente, a língua não para quieta - Mulheres! Ah, esse maior dos pecados de um homem! É verdade que muitos conseguiram se ver livres de alguma forma deste mal, seja matando a si mesmo, seja esganando a(s) mulher(es) que tanto o enfraquece. Mas para aqueles que aceitam a vida e a si mesmos como sendo o que são, aqueles que afirmam sua própria natureza não podem fugir de todas as fêmeas do mundo - é preciso enfrentá-las, e embora consigamos vencer algumas vezes, sempre haverá uma que nos golpeia mortalmente. E parece que a lua para Tiger Woods está cheia - o que não faltam são mulheres a lhe preencherem os desejos mais devassos, talvez aqueles que a sua mulher, mesmo linda, não poderia satisfazer. Porque está na nossa natureza, não se pode negar - e o poder é um péssimo amigo para as almas que tentam vencer os desejos desenfreados. Por isso, é verdade, até os santos pecam, o que nos mostra, no fundo, que é impossível ao homem a plena santidade. Mesmo que aquela vida que sempre nos foi oferecida como a mais perfeita que um homem pode ter - não é possível, a carne, aquela bendita reunião de músculos e nervos, nos puxa sempre para baixo. Graças a Deus por isso!

Metáfora da visão III



Em terra de cego, quem tem olho é rei!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Alguma poesia - Drummond



Algumas poesias que falam por mim, como se minha alma as tivesse ela mesma escrito estes versos enquanto eu os lia, neste seu primeiro livro de poesias.


Toada do amor

E o amor sempre nessa toada:
briga perdoa perdoa briga.
Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta pra brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas, se não fosse ele, também
que graça que a vida tinha?

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

***

Nota social

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele fez isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue,
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico.

***

Poesia


Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


***


O Sobrevivente


Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)


***


Explicação


Meu verso é minha consolação.

Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.

Para beber, um copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,

Folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,

Queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos

É que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...

Ele às vezes tem um ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,

Mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.

Eu bem me entendo.

Não sou alegre, sou até muito triste.

A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.

Há dias em que ando na rua de olhos baixos

Para que ninguém desconfie, ninguém perceba

Que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,

De repente ouço a voz de uma viola...

Saio desanimado.Ah, ser filho de fazendeiro!

À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,

É sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.

Aquela casa de nove andares comerciais

É muito interessante.

A casa colonial da fazenda também era...

No elevador penso na roça,

Na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra

E eu gosto bem de ter nascido com esta tara.

Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.

A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro

E tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.

O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.

Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,

Lê o seu jornal, mete a língua no governo, Queixa-se da vida (a vida está tão cara)

E no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.

Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?


Mil vistações, quem diria...

É muito gratificante saber que há sempre essa possibilidade de ser ouvido pelo outro, ainda mais neste espaço que é a internet, onde a pessoa à frente não está propriamente à frente, em um diálogo direto, mas em muitos milhares de outros mundos possíveis onde houver um pc e uma rede. Agradeço a todos pelas visitas, pelos comentários, pelo carinho e a participação neste projeto solitário de pensar o mundo e a si mesmo - que se percebe não tão solitário quanto parece...
Cesar de Alencar

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Para dispersar das preocupações...



Tudo bem - devo confessar que meu excesso de preocupação com questões políticas, se não em larga escala, ao menos aqui em terras tupiniquins, não são de modo algum uma preocupação salutar.
"Para quê? - me perguntaria algum carioca à beira-mar, sob um sol causticante de quase 45°, a admirar as belas fêmeas em Ipanema e aquelas curvas traseiras de tirar o fôlego de qualquer tentativa de pensamento - para que pensar nessas coisas? Esses políticos são tudo uma cambada de filhos da puta, não tem respeito nem por si mesmos, que dirá pelo dinheiro do povo. A gente tem é que votar nulo e aproveitar o resto do domingo na praia, porque o calor, meu amigo..."
Talvez eu ainda tentasse alguma réplica, o que de fato não seria muito difícil de fazer - mas como, ou para que afinal, se as eleições são só no ano que vem, se ainda teremos natal, ano novo, carnaval, páscoa, dia dos namorados, dias das mães, dia dos amigos, dia disso, dia daquilo... Para quê? A tal pergunta inconveniente não me deixa sossegar. Mas enfim minha alma pode sossegar tranquila; enfim não precisarei mais me ater em picuinhas tão inúteis como aquelas relativas a nossa política; enfim, os nossos políticos nos mostraram mais uma vez que quanto menos pensarmos em política, melhor - Para quem?
Eis mais uma dessas perguntas inconvenientes...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um incômodo auditivo



Para que os dedos se disponham a traçar uma sinuosa harmonia entre palavras e conceitos tão distintos entre si, criando assim aquilo que chamamos de discurso, fala, é necessário que antes haja um pensamento que de fato coordene e (ainda que não se queira admitir) crie esta sinuosa harmonia, única possibilidade de comunicação entre os homens - sem esquecermos que gestos e imagens precisam igualmente de harmonia e coordenação para que sejam entendidos. Isso nos mostra, dentre outras muitas coisas, que o animal humano, como bem afirmavam os antigos, é e será sempre um animal que pensa, cuja existência se realiza plenamente por meio do pensar. E somente quando algo muito me inquieta, me angustia, é que o discurso se realiza, a fala cria corpo, e a manifestação de meus pensamentos, seja aqui ou onde for, torna-se possível.
Pois no fundo certos assuntos problemáticos tem me incomodado deveras, e se percebo que de fato tais preocupações não estão na boca do povo, isso me revela apenas que sou um ser imerso em mim mesmo, criador de casos e de dores de cabeça pouco ou nunca necessárias, já que tudo corre a mil maravilhas no mundo e neste pequeno país latino-americano. Poderia ser que eu supusesse a maioria esmagadora das pessoas como seres extremamente despreocupados, que não param para pensar nestes problemas, haja vista já os possuírem às dezenas, por certo bem mais importantes que esses - mas não, como imaginar uma coisa dessas de mais de 6 bilhões de seres humanos? Se alguém está errado, incomodado, enlouquecido com o descaso do mundo pelo mundo - esse alguém que se interne, ou pense que lhe seja melhor talvez fugir deste mundo, já que a hipótese de compactuar com esse descaso lhe passa longe da boca...
Mas diga lá, senhor incomodado, o que tanto assim o inquieta?
Se alguém atravessou estes desabafos e chegou até aqui, isso talvez seja um bom sinal: talvez existam ainda pessoas preocupados com as coisas. Porque se dependermos de salvar o planeta (e junto dele, a nós mesmos) com a economia e a política do jeito que ela se realiza hoje, é bem provável que meus netos não possam ter filhos, já que nem mesmo a garantia de sua própria existência estará assegurada. A lógica que impera no mercado e nas casas, nas assembleias e nos botequins dos bairros, é a lógica da destruição em larga escala de todos os recursos que o planeta pode produzir, antes mesmo dele poder produzi-los. A voracidade do lucro imediato lança essa questão para um futuro que a depender desta voracidade não existirá.
Até aqui muito já foi dito. Não são poucos aqueles que anunciam os problemas da produção econômica de nosso mundo globalizado, e hoje mais que em qualquer época. Contudo, apenas um grito incontido de um povo em desespero não poderá nunca ser ouvido, no sentido mesmo de ser compreendido - no máximo o susto e o espanto é que são provocados. Pois é como antes falava: os homens só podem de fato se comunicar por meio de uma linguagem bem articulada, ordenada - ou seja, através de palavras que anunciem pensamentos. Os brados estridentes das comunidades internacionais, de países e/ou de celebridades do show business, não podem se fazer ouvir atentamente pelas massas favorecidas que controlam o mundo usando seus dólares, porque grito por grito nem os dos comunistas sobreviveram. Essa moderna "aristocracia" burguesa só tem ouvidos para uma voz, aquele som imaterial e inumano que o dinheiro lucrativo suavemente vai ressoando em seus ouvidos, como um canto da sereia mais bela, e mais digna de ser louvada. Como impedir esse encanto com gritos tão grosseiros e bárbaros, se a voz melodiosa do lucro é bem mais serena, mais límpida, mais civilizada? Há que se falar de outra forma com seres tão "refinados"...
E caberia ao governo este papel. É a política a única capaz de fazer frente aos interesses privados em favor do bem de todos. E uma teoria política que se construísse em oposição ao modelo econômico vigente deveria buscar outros valores, outras vozes a que ouvir, para livrar-se daquele encanto da miríade capitalista. Mas onde encontrá-las? Onde se podem ouvir outras vozes que não esta?
Este é um grande problema - e um grande incômodo...

Ps: A Skol não teve nada a ver com isso, claro...

Aforismos III



*Quem pensa que diz o que pensa, no fundo diz que não pensa - pense nisso!

*O agora é um presente-passado, e o futuro não será mais que o agora de um passado ainda por vir, um passado que agora nos é presente.

*O mundo é eterna mudança - e nada além disso.

*Uma vida sem ironia não merece ser vivida.