Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.

domingo, 6 de maio de 2012



Existem aqueles que vivem por prazer ou pelo sucesso, e se precupam excessivamente consigo mesmos; existem aqueles que vivem pelos outros, e agem como que gratuitamente a fim de realizarem o bem. Todas estas três formas de realização existencial são em si mesmas insatisfatórias: o segredo não está em viver por esses bens, quaisquer sejam eles, mas em encontrar o bem de estar vivo e de poder viver por aquilo que se deve viver. A existência é o maior dos nossos bens.

Soneto em tributo à Afrodite



A vida para ali, quando ela passa
meu corpo cala só - como se perdesse
o ar, naquele encanto que esfumaça
a pretensão de um amor igual a esse

Inigualável em essência, inimitável
forma de dar à luz esta divindade
do amor, apaixonado - imperdoável
a quem ofende sua nobre santidade.

Imaculado, o meu desejo em chama
arde no peito, coração, na cama,
não vendo a hora de ser consumado:

o altar preparado para o delírio,
a forca pronta, este cruel martírio -
pudera viver sempre arrebatado.

Aborto e outras mortes desumanas...


Um ser humano encontrado em uma floresta perdido, por volta dos seus oito ou nove anos, sem ter nenhum tipo de comunicação anterior com sociedades, sem ter aprendido a falar e a pensar como nós, desprovido de cidadania, desprotegido em meio à selva da vida. É justo matar este ser a partir da opinião de que ele não é "humano"? O que esse "humano" quer dizer? Ausência de pleno desenvolvimento, em um indivíduo de uma determinada espécie, das capacidades possíveis àquela espécie é razão para não classificá-lo como a ela pertencente? Uma criança ou um idoso profudamente debilitado não são mais humanos porque não dotados da capacidade de exercerem plenamente suas possibilidades? É razão suficiente para matar alguém que ele ainda não ou não mais apresente as propriedades plenas do "humano"? Qualquer tentativa de justificar a morte de um feto ainda não barriga da mãe esbarra na mesma consideração.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O mundo por trás do mundo


Existe no mundo cultural - quer dizer: no âmbito da divulgação e produção de ideias veiculadas nacional e mundialmente, o que se poderia chamar de duas camadas de opiniões, inegavelmente interrelacionadas, e que em determinadas épocas se interpõem e se chocam; em outras, colaboram incessantemente. Abusando dos termos próprios às religiões e sociedades secretas, poderíamos dizer que uma camada seria esotérica - ou seja, aquela em que as ideias e opiniões circulantes são condizentes com os fatos e as intenções reais de quem os analisa ou realiza - enquanto a outra seria exotérica - disposta ao público em geral, veiculada massivamente, e que pode ter ou não relação fidedigna com a camada esotérica. Quer-se dizer com isso que no conjunto das opiniões que apreendemos na sociedade, algumas delas dizem respeito de fato ao que acontece, enquanto outras são apenas modos diferentes de se dizer, eufemística e adulatoriamente, o que de fato acontece. Como alguém que prega aos quatro ventos aquilo que ele mesmo está longe de praticar, o mundo das ideias culturais vive uma esquizofrenia aguda. Se em determinadas épocas a relação entre as duas camadas poderia se dar por vezes de modo inconsciente ou não planejado, hoje se percebe uma crescente capacidade de articulação intencional entre as duas, e o que é pior: no sentido de fazer com que a camada exotérica veicule e apresente ideias e opiniões que distorcem propositalmente os aspectos escusos e esotéricos daquilo que tem acontecido de fato.
Para ilustrar o quadro atual, nada melhor do que perder alguns minutos de nosso precioso tempo frente à televisão: em qualquer telejornal brasileiro, o modo como as reportagens são escolhidas, editadas e veiculadas é já uma amostra daquilo que se poderia chamar a intenção exotérica de mostrar as notícias - enquanto aquilo que de fato acontece permanece nos bastidores: ou drasticamente recortado pelas edições, ou absurdamente negado enquanto digno de ser notícia. O caso Obama é exemplar, mas não é o único: as águas têm descido cachoeira abaixo, sem sequer serem compreendidas em todas as suas implicações pelo cidadão leigo em política. É preciso ter algum faro para linguagem tendenciosa e retórica, algum treino mais apurado em filosofia, para perceber que as imagens e frases ditas pelo aparelho de TV e jornais brasileiros não são uma denúncia do que tem acontecido, mas uma escolha certeira daquilo que querem que acreditemos ser o que de fato tem acontecido. Se nós, pobre mortais, não podemos participar do jogo esotérico do poder, sobra-nos a ressalva importante de avaliarmos que espécie de saber político pode ser apreendido pela confrontação das muitas notícias exotéricas. Mas um trabalho como esse, senão impossível de ser realizado pelo cidadão comum, deveria ser objeto de estudo constante daquele que aspira à filosofia, tal como Sócrates e Nietzsche nos ensinaram: a busca incansável pela verdade. Quem se habilitaria a uma missão como essa, em um país abandonado aos corvos? O Brasil carece de filósofos - porque nem sequer sabe o que isto quer dizer.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Diálogos com a physis V



- Já dizia aquele sambinha nosso de cada dia, "ta tudo virado de pernas pro ar"!
- Como assim?
- Não lê jornais?
- E eles lá dizem grande coisa?
- Pois é, o problema é esse. Eles não dizem o que está acontecendo... Há a instauração de uma ordem mundial, que estão nos fazendo engolir goela adentro, sem sequer suspeitarmos que antes de ser um remédio, ele parece um veneno. À força, somos coagidos a concordar com o que se faz na ONU e, em servidão subsequente, no Estado brasileiro. A mente das pessoas tem sido vilipendiada a todo instante, com propagandas que invertem a ordem natural das coisas, que nos levam a enxergar o que de fato não estamos vendo!
- E isso não é bom?
- Seria, se o que nós não estivéssemos vendo fosse a verdade, não a mentira.
- Essas distinções metafísicas não existem mais!
- Acredita mesmo nisso? Acredita que ou tudo é mentira ou tudo seja verdade?
- Quem nos pode dizer o que é uma coisa ou outra?
- Nossos olhos! Veja: nosso país foi abençoado com inúmeras riquezas, mas sejamos sinceros, a benção não é nossa e sim dos outros, porque além de ricos somos estúpidos e ignorantes - Que entrem e levem tudo, é o que dizemos: só queremos o mínimo para poder viver bem, ser feliz e sambar...
- Ah, não fale mal do nosso espírito alegre! Somos o povo mais feliz do planeta!
- E isto não deixa de ser uma estupidez...
- Como você pode falar isso?
- Eu vejo!

O advento da ditadura secreta

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 28 de março de 2012

Escolados pelo precedente do Foro de São Paulo, cuja existência lhes foi ocultada durante dezesseis anos pela mídia soi disant respeitável, alguns leitores brasileiros talvez não se sintam tão espantados ao ver que o New York Times, o Washington Post, a CNN e demais organizações jornalísticas de maior prestígio nos EUA, mesmo depois do pito que levaram do Pravda, continuam sonegando ao público qualquer notícia sobre os documentos forjados de Barack Hussein Obama.

Nos dois casos, a recusa de cumprir a mais primária obrigação do jornalismo pode se explicar, de início, pela reação automática de ceticismo ante condutas que, de tão perversas, maliciosas e abjetas, parecem inverossímeis. Quem poderia acreditar, assim sem mais nem menos, que a esquerda, desmoralizada e aparentemente moribunda após a queda da URSS, estava preparando um retorno triunfal na América Latina por meio de um acordo secreto entre organizações legais e criminosas, planejado para controlar, pelas costas do eleitorado, a política de todo um continente? Quem poderia engolir, na primeira colherada, a hipótese de que um bandidinho com identidade falsa, subsidiado por bandidões, ludibriou a espécie humana praticamente inteira e, da noite para o dia, saiu do nada para se tornar presidente da nação mais poderosa do mundo? É mesmo difícil. Mas quando nem mesmo o acúmulo incessante de provas inquestionáveis demove do seu silêncio obstinado os profissionais que são pagos para falar, então é impossível evitar a suspeita de que o engodo geral não foi tramado só por políticos, mas também pelos donos de jornais, revistas e canais de TV, secundados pelo proletariado intelectual das redações.

No entanto, como qualquer pessoa com mais de quinze anos tem a obrigação de saber, não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar. Depois de ocultar a maior fraude política de todos os tempos, a mídia americana passou a esconder até decretos oficiais do governo Obama, que assim são impostos a toda uma população desprovida do elementar direito de saber que eles existem. Os leitores mais velhos devem se lembrar de que a nossa ditadura militar inventou, um belo dia, um treco chamado “decreto secreto”, que entraria em vigor sem precisar ser publicado. Inventou-o mas, que eu saiba, não teve a cara-de-pau de chegar a usá-lo. Pois bem, graças às empresas de comunicações de Nova York e Washington, essa coisa, essa deformidade jurídica inigualável, está em pleno uso na mais velha e – até recentemente – mais estável democracia do mundo.

Quando o amor fanático da classe jornalística a um político se coloca descaradamente acima da Constituição, das leis, da segurança nacional e de todas as regras básicas da moralidade, não há como explicar isso pela mera preferência espontânea dos profissionais de imprensa, por mais obamistas que eles comprovadamente sejam. Alguns jornalistas chegaram a queixar-se ao chefe da Comissão Arpaio, Michael Zullo, de que haviam recebido ameaças diretas do governo para que nada publicassem das investigações. Artigos a respeito foram misteriosamente retirados até de sites conservadores como www.townhall.com, e uma entrevista marcada com Jerome Corsi, o incansável investigador da fraude documental, foi suspensa na Fox News por ordem explícita da diretoria. Com toda a evidência, o bloqueio vem de muito alto, envolvendo tanto funcionários do governo quanto potentados da mídia.

Quando se conhece, porém, o conteúdo dos decretos ocultados, vê-se que a coisa é infinitamente mais grave do que o simples boicote organizado do direito à informação. Em 31 de dezembro, quando o povo estava distraído festejando o Ano Novo, Obama assinou o Defense Authorization Act, que lhe dava, simplesmente, o direito de mandar matar ou de prender por tempo indefinido, sem processo nem habeas corpus, qualquer cidadão americano. No crepúsculo da sexta-feira, 16 de março, veio uma ordem executiva (o equivalente da nossa “medida provisória”, com a diferença de que não é provisória) que confere ao presidente os poderes necessários para estatizar, a qualquer momento e sem indenização, todos os recursos energéticos do país, incluindo as empresas de petróleo, mais a indústria de alimentos, e ainda para instituir quando bem deseje, sem autorização do Congresso, o recrutamento militar obrigatório. Em suma: o homem deu a si mesmo poderes ditatoriais, e nas duas ocasiões fez isso em momentos calculados para desviar as atenções e frustrar a divulgação. A precaução acabou por se revelar desnecessária: jornais e canais de TV, levando a solicitude até o último limite do servilismo totalitário, não publicaram praticamente nada a respeito, de modo que, com exceção daqueles que já voltaram as costas à mídia elegante e preferem informar-se pela internet, os americanos, tendo adormecido numa democracia, acordaram numa ditadura sem ter a menor idéia do que havia acontecido (v. os comentários de Dick Morris em http://www.dickmorris.com/obama-assumes-dictatorial-powers/).

Não que esta seja a primeira ditadura a ocultar sua própria existência. O segredo, ensinava René Guénon, é da essência mesma do poder. As diferenças são duas:

(1) Pela primeira vez na história do mundo a ditadura secreta é implantada por um ilustre desconhecido cuja identidade permanece ela mesma secreta, bloqueada a todas as investigações.

(2) O episódio evidencia com clareza obscena o fenômeno mundial, a que já aludi muitas vezes, do giro de 180 graus na função da grande mídia, que de veículo de informação se transmutou maciçamente, nas últimas décadas, em órgão de censura e controle governamental da opinião pública.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A práxis da Guerra, nietzschianamente falando


Resumo em quatro sentenças - para uma arte da guerra intelectual legítima:
(1) Eu apenas ataco coisas que são vitoriosas;
(2) Eu apenas ataco coisas contras as quais jamais encontraria aliados, contra as quais tenho de me virar sozinho;
(3) Eu jamais ataco pessoas - sirvo-me delas para tornar manifesta uma situação de necessidade comum, mas furtiva e pouco tangível;
(4) Eu apenas ataco coisas contra as quais todo tipo de diferença pessoal é excluído - atacar é uma prova de bem-querer para mim e, conforme a circunstância, de agradecimento.

in Ecce Homo

Pintura: Goya, gravura n36, Desastre de la Guerra