Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.

domingo, 21 de setembro de 2014

Pagode nosso de cada dia






Nem bem começa o dia e o pagode dá o tom das ruas. Quem dera fosse um mal dos subúrbios, mas a sintonia é angustiante. Uma descida rápida para comprar pão e frutas é o bastante para se deixar impregnar pela melodia do pandeiro e do amor. Sentidos invertidos, pervertidos, dúbios. Pandeiro e amor não podem significar mais que um corpo de mulher, mais que uma atração sexual. Será que é amor? – canta a voz na rádio, encanta o povo. Sua dúvida não é sugestiva, é alienante.
Não pergunto por nada além de mamões e bananas, mas parece que me deveria estar ambíguo, que me deveria olhar por outro sentido, invertido, pervertido. E não é que o tenho? Música popular não é senão a tradução do que é comum ao povo, não é mais que cantoria de sensações e aspirações que a multidão alimenta. Todos somos multidão. Em alguma fase da vida, porém, deveríamos deixar de sê-lo. Somos mais que mamões e bananas.
Hoje comerei só mamões. Estou confuso. Olho-me ao espelho de modo diferente. O olhar é mais profundo. Vasculho a multidão que há em mim. Lá fora o pandeiro tece ainda considerações sobre o amor. Pela linguagem dos olhos, eles dizem. Vejo não estar sozinho. Por poucos instantes meu corpo se projeta ao espelho como uma figura adversa, um outro ali à frente, sério e cansado. Vejo-me em um duplo. Ambiguidade, inversão? Há perversão, por certo. Preliminares de um apelo menos ouvido. Insistimos em não ouvi-lo. Gostamos de imaginar a vida resumida à cama. A noite convida a fazer amor, eles dizem. Eu não me amo, talvez. Insistimos nas preliminares e jamais alcançamos o gozo.
Perto do coração selvagem não há voz alguma. São gemidos, são batidas de funk em vias de substituir o pandeiro e o amor. Quase saía de casa com a blusa invertida. Voltei ao espelho, mas o olhar era outro. Desci as escadas e as vozes se elevaram. Não existem mais metáforas e figuras de linguagem. Descemos literalmente ao clamor do sexo. Uma mulata caminha na calçada, o rabo seduz pelo vestido curto, rabo ou pandeiro, tanto faz. O coração selvagem só ouve a voz do amor. Um carro me surpreende. Quase saí de casa sem voltar. No fundo me sinto mesmo ausente de casa. Parece que a alma se ausenta do corpo, se olha assustada, silencia. Não há silêncio nas ruas. Os olhos caçam outra donzela, gazela deveras, de pandeiro curto mas de belos mamões. A linguagem dos olhos é sutil, mas a do corpo soa explícita. Talvez esteja vendo coisas.
No fundo me sinto ausente. Muito perto do som das ruas. Sons e imagens. À noite, a televisão encerra o dia com a linguagem do corpo, explícita. Já não cantam as ruas, apenas a intimidade. Olho-me na tela. A multidão agora é multicores, é sedutora, é transparente. Não se vê senão corpos, pandeiros e amores. Apelo ao prazer sentido, desejado, buscado a todo custo. Buscam-se amores como se buscam mamões e bananas. Há inclusive boa oferta. São malhados e saradas, meninos e meninas. Por que não uma sintonia de fêmeas? Por que não um orgulho feliz entre machos? Há que nos orgulharmos de nossas novelas cotidianas. Ele é casado, mas não consegue abrir mão das sensações que lhe oferecem as jovens alunas. Ela é solteira, e busca encontrar o amor que conjugue a delicadeza do olhar intimista com a quintessência do prazer sobre a cama. Não demoram a se inverter os papeis. O mocinho era o bandido, no fundo.
Por ironia, todos são bandidos. A multidão aplaude, canta, assiste. Imita seus ídolos, encara suas misérias. Nossas relações dão-se no mais elementar dos tecidos de sensações, naquele jogo infantil e selvagem entre dor e prazer. Mas fugimos de fato da dor? O apelo ao prazer é multicolorido, é explícito, é pervertido. Alimentamos por aqui a cultura de frutas, belas e gostosas. O melhor das pessoas se alcança na fome. Joga-se fora o bagaço. Quem sou eu? Talvez não esteja mais que seduzido pela cantoria das sereias. É preciso se amarrar à haste do navio, nos ensinou o astuto Odisseu. Desligo a TV e deito na cama. Não há sons ou imagens, mas trago a cultura em mim. É preciso cultivar outras searas, novos terrenos, diferentes desse árido clima de oásis que por aqui nos ilude. Talvez a cantoria das ruas seja abafada por sinfonias para violino. Violinos, não violões – porque, desgraça, os últimos já me deixam dormir pervertido.

Inverno, 27 de junho de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

Hesse - O Jogo das Contas de Vidro



Hesse legou-nos uma bela metáfora acerca do demasiado humano. O jogo das contas de vidro é uma metáfora acerca da nossa condição de homens, situada inevitavelmente entre a mundanidade dos influxos de instintos animalescos e uma conquistada elevação intelectual em busca do belo e do bem. Deixa-nos lembrar de Nietzsche, faz-nos esquecer de Marx. O primeiro, em sua inescapável paixão platônica, só fez reverberar em seus aforismos, dionisiacamente apolíneos, as mais belas palavras de Sócrates em Banquete. No fundo, o apóstolo de Zaratustra tinha consciência daquela vontade que move o homem à iluminação, ele mesmo encontrando a sua para além do bem e do mal. Pensou tivesse ter-lhe escapado. O segundo, entretanto, pensou tê-lo com toda a insistência de anos dedicados a não fazer mais que deixar patente a prisão em que se encerrou. Erro Capital supor livrar-se de seus demônios assim tão facilmente no campo do puro abstratismo econômico. As veias abertas de sua irreligiosidade impregnaram suas análises de ideologia fanática e opressiva. Há que se esquecer de Marx e de sua ideologia quando a vontade de verdade torna-se inescapável. Bela e boa metáfora é tecida nessa obra de Hesse. Metáfora que soa indelicada a quem se mantém deveras apegado aos instintos mais baixos, ao dinheiro e ao prazer, à economia e à política. Hesse traz-nos de volta ao caminho da virtude e da sabedoria, que vai além do bem que o mal contém, pois não despreza o mal que só o bem traz. Hesse compôs a metáfora.

Sua imagem é a de um país futurista em que uma cidade, de nome Castália, emerge há décadas como a obra mais elevada do gênero humano. Dona dos maiores legados culturais de toda a humanidade, a vida de dedicação sacerdotal ao ofício do estudo e da educação não pôde senão exercitar o gênio humano a elaborar um jogo em que, com a simplicidade dos hexagramas do I Ching, se chega a conjugar as mais altas conquistas da arte e do saber com apenas algumas contas de vidro. O jogo de avelórios é ambos: a excelência humana e a razão de Castália existir. A casta da Elite, como é chamada, não poderia ver justificada sua funcionalidade social, política e econômica, a não ser pela existência e reverência ao jogo – obra-prima reconhecida por todos, há que se notar. Na imagem de Hesse, mesmo os homens entregues à mundanidade de seu viver reconhecem, não sem alguma distância irônica, o valor e a necessária condição social de uma cidade de Castas. Como excelência humana o jogo e a cidade se apresentam aos seus praticantes, embora aos mundanos não permaneça, em relação a eles, senão uma distância que de reverente acaba com o tempo desgastada em indiferença.

O tempo realmente desgasta qualquer excelência e sua razão de ser, se estas não forem perseguidas com diligente aproximação. Há que se aproximar de Castália, da ordem e da harmonia, para escapar aos influxos dispersantes e alienantes da vida mundana multiforme. É o que revela a personagem de Designori – amigo-rival de José Servo, a figura biografada na obra de Hesse. Mas a verdadeira vida narrada aqui não diz respeito a Servo, a Designori ou ao amigo de Servo, Tegularius. A obra narra a vida do espírito, que só não é grafado com a primeira letra em maiúscula para que não confundamos a vida narrada com aquela imaginada por Hegel. Não se trata no livro de Hesse de recontar certa biografia de uma entidade supra-material, transposta ao campo da história por Marx, desmistificada em além-homem por Nietzsche. Em Hesse, entra em jogo as concepções mais tradicionais acerca da vida dedicada ao imaterial, de modo a formar em nós um vislumbre daquilo que comove por séculos santos e sábios.

Com o tempo, seguimos a sua narrativa e vamos nos dando conta de que a força espiritual invade a existência silenciosamente, como a existência silente de Castália parece mesmo ilustrar face ao mundano. Ordem e harmonia exalam dessa cidade de castas, e a repulsa que sentia Designori em sua juventude volta-se, na maturidade, como uma angústia, um desejo de entendimento. Porque ainda que as fórmulas e formas solidificadas pela tradição nos pareçam alienantes e castradoras, a nós jovens que não queremos mais que conquistar o mundo pelo ímpeto de nossa vulgaridade tida como genial e excelente, percebemos com o tempo que esse ímpeto, desgastando-se face à realidade nua e crua, tende a voltar-se ao que rejeitou por revolta, a procurar-se ali mesmo onde achava não poder se encontrar, e no fim acabar suspirando aliviado por haver algo assim como a tradição humana. A ordem e a harmonia, assuntos envelhecidos para nós outros, modernos alienados em lutas de classe e niilismo, será sempre o fundamento do caminho do presente para o eterno. É questão de tempo que se venha a percebê-lo.

Não posso deixar de perceber que o fluxo da narrativa ilustra a finalidade essencial do biografado. O jogo de avelórios, como personagem principal do romance-ensaio de Hesse, é a imagem retumbante da vida do espírito lançada em seu lugar no mundo: um jogo, religioso e devocional a quem pratica, espirituoso e não de todo inteligível a quem o admira de longe. As vidas de Servo e de Designori no fundo só são inteligíveis em seus papeis sociais e em seu sentido de vida face ao jogo. E não se trata de mero artifício as ditas contas de vidro. No debate travado por ambos nos capítulos finais, fica clara a posição de cada um face à tradição encarnada pela prática e manutenção do jogo, por seu rito e mito. Designori, mudano atraído em definitivo pelo mundo que sempre lhe parecera mais colorido que Castália, não fez senão o movimento pouco perceptível em quem se aventura pelas luxúrias da vida: encara o peso de ter rejeitado o fundamento espiritual de sua existência e não procura outra forma de resgatar-se a não ser em nova aproximação com a cidade de castas. A José Servo, porém, as frutíferas e de certo providenciais retiradas que fez ao mundo durante sua prática devocional à Castália mostraram-se, em meio ao surpreendente desfecho de sua biografia, a intuição necessária para se perceber que toda vida dedicada ao espírito demanda um necessário reconhecimento do material: ou seja, que a mera reclusão junto à intelectualidade não seria possível sem que a pólis lhe oferecesse essa possibilidade: no fundo, a lição que Servo nos dá, com um nome que reverbera toda a sua significação, é a de que não se pode chegar a ser senhor de uma vida espiritual sem o sê-lo em servidão quanto à vida material que lhe dá existência, e que para ser senhor sobre as exigências da matéria é preciso sê-lo em servidão ao espírito. Esta dialética da vida humana, longe de se encerrar em uma síntese hegeliana ou marxista, parece sustentar o peso da tragicidade nietzschiana da antinomia, da luta dos opostos à maneira de Heráclito, oferecendo ao fim uma saída que é apenas uma entrada na existência mesma do conflito.

José Servo, o senhor do jogo de avelórios, atinge em vida a mitificação de sua jornada em busca da sustentação do conflito com a mesma simplicidade pela qual se deixou conduzir nas experiências que o iniciaram à maior de todas as dificuldades de um verdadeiro mestre intelectual e espiritual: a de reconhecer a fragilidade de sua condição social. Nem todos chegam a ser enviados à Castália, nem todos chegam a permanecer-lhe. A via intelectual e espiritual é uma travessia de poucos, bem poucos. Uma fragilidade que parece ter algo a ver com as denúncias que já Platão havia feito em sua República, à sombra da morte injusta de seu mestre Sócrates, acerca da vida perigosa do amante da verdade, uma provável vítima da violência bárbara da massa de ignorantes. Aristóteles dizia ser a filosofia algo realizável apenas quando as necessidades materiais da existência tinham sido supridas, e não é difícil perceber por essas indicações de que maneira a via espiritual depende da sua contraparte material.

A ameaça de Castália, sentida por Servo como em um lampejo fulgurante daqueles em que se chega a ver uma verdade, é ainda e sempre a condição fragilizada do homem entreposto eternamente entre a imersão na animalidade e a elevação ao vislumbre do espírito. Mas se esta é sua condição individual inevitável, a situação social de perigo pela ignorância geral lhe condena duplamente, quer seja pela impotência em face de qualquer tentativa de que a humanidade como um todo se volte ao seu princípio espiritual, quer seja pela certeza de se ver lançado a uma preparação para a morte, como defende Sócrates pouco antes de morrer condenado pela ignorância geral. E não se pode ignorar o perigo que a tradição do espírito enfrenta, em qualquer tempo histórico. A brilhante metáfora de Hesse nos deixa ver que a vilania do apelo social de certas ideologias que se voltam contra a tradição tem sua mácula iniciada em cada indivíduo que a si mesmo se fez refém da revolta contra aquilo mesmo que lhe fez ser o que é. A consciência de Designori mostrou-lhe o erro. A consciência de Servo também. No entanto, coube ao mestre do jogo o perigo maior: abrir mão do conforto espiritual da posição mais alta em uma sociedade de castas para aventurar-se a mostrar, a um único jovem mundano que seja, o valor e a necessidade da vida do espírito. Todos terão que realizar a mesma escolha algum dia. Hesse convidou-nos a fazer a sua. Faço a minha ao esquecer Marx, sem deixar de lembrar Nietzsche. Escolho a consciência do erro.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A verdade de Helena


A força do lógos que a tudo domina
mina inclusive a responsabilidade
da alma, que entretida com a fugacidade
se esconde da verdade e a elimina

no seu lugar de residência, habitação
ordenada pelo amor que lhe devota:
por certo, o peso em decidir embota

aquela natureza desregrada
não por outros, mas por si enganada -
de certa forma, Górgias tem razão.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

The Walking Dead




Se entendemos a arte como fundamentalmente uma expressão de impressões, o artista por definição está impossibilitado de governar em conjunto todos os meandros e as sutilezas de sua criação: embora necessariamente dotado de uma consciência apurada e mesmo crítica acerca de sua expressividade poética, um autor não poderia ter domínio sobre todas aquelas impressões que deseja exprimir, pelo simples fato de lhe serem muitas ainda inconscientes. Diante disso, o papel do espectador torna-se lapidar, à medida que seu olhar cuidadoso fará com que naturalmente criem relevo os indícios de certos sentimentos e pensamentos que o artista expressou sem saber, a fim de conjugá-los às impressões conscientemente expressas em um todo harmônico e por vezes estimulante. A tarefa do crítico de arte é exatamente a de um espectador cuidadoso.

Em The Walking Dead, concluo sem dificuldades, o que se chegou a expressar encontra-se na criação de uma alegoria acerca da condição propriamente humana, no que diz respeito ao seu exercício de liberdade e de escolha. A série em questão é uma metáfora ressonante de quais são as variáveis e as implicações envolvidas no processo humano de tomar uma decisão, quer seja no âmbito individual quer seja na esfera social. Aliás, todas as escolhas não são senão pretensamente individuais: vivemos e devemos viver em sociedade, motivo pelo qual toda decisão é sempre uma escolha coletiva. E a atmosfera em que se desenvolve a história não poderia ser mais propícia.

A queda do mundo tal como se conhece hoje: eis a ambientação a que somos levados. Um vírus misterioso infectou a vida humana no Planeta, de tal modo que as pessoas normais, as poucas que restaram, viverão o resto dos seus dias na tentativa de escaparem ao fim que alcançou a grande parcela da população. Tornar-se um zumbi, um morto-vivo, um ser sem qualquer traço de humanidade – escapar de transformar-se em um deles é o sentido de vida dos que restaram ainda conscientes. Pode parecer ao espectador que a série, à primeira vista, seja mesmo uma metáfora sobre a luta pela sobrevivência humana, pelos modos que temos e podemos ter de tentar nos preparar para o pior. Mas essa não é senão uma leitura que nada na superfície. A imagem criada por The Walking Dead é, antes, a de uma simbologia cuja significação vai bem além de uma simples luta pela sobrevivência. O que vemos, de fato, é a representação do conflito essencialmente humano entre agir segundo sua animalidade, seu instinto de sobrevivência, e agir segundo sua humanidade, seu apelo à bondade e à virtude. O que interessa na série encontra-se no elemento propriamente humano da liberdade moral – e ousaria dizer que nesse elemento está toda sua força cultural, em detrimento das mortes e cenas grotescas de terror sanguinário que incomodam aos olhos mais sensíveis.

Vejamos. Depende da capacidade moral qualquer escolha que tomemos. E a capacidade de decisão não pode existir isenta de consciência – antes a exige. É por essa razão que os ditos zumbis não podem escolher: piores que animais, o corpo envenenado pelo vírus só encontra satisfação com a carne alheia. Não pensam nem guardam qualquer traço de memória, pois o cérebro tem unicamente estimulada a sua parte apetitosa. Estímulo que não cessa até que sejam feridas de morte as sinapses restantes. São uma ameaça quando surpreendem à espreita ou quando atacam em bando. Isolados e à luz do dia, parecem mesmo ridículos. A força da metáfora aqui é flagrante: os mortos-vivos dos dias atuais não pensam nem usam da consciência para fazer suas escolhas, mas vivem a vida em função de seus apetites. Em seres assim, fala mais alto em todo caso as vontades imperativas do baixo ventre. Não deixa de ser uma ameaça sua reunião sob uma mesma causa ou bandeira.

Os humanos sobreviventes, lançados à própria sorte em um mundo sem leis ou governos ou qualquer outra garantia política, econômica e espiritual, veem-se na condição de seres por assim dizer intermediários entre os caminhantes mortos e os traços remanescentes de sua remota humanidade. Os sobreviventes são os homens normais – e a palavra normal aqui é deveras sugestiva: reverbera os impactos biológicos e sociais dessa condição de ser humano a que nos vemos constantemente lançados. Como seres intermediários entre o caos e a consciência, entre a queda da civilização e a recusa pela barbárie, o homem é posto frente ao apelo que jamais lhe deveria escapar. Alguns não tardarão em abrir mão daquelas vagas lembranças de um passado condenado face a um presente assustador que lhes exigirá as decisões mais acertadas tendo em vista à sobrevivência, quer individual quer coletiva. Não cabe procurar fazer o certo ou o errado, diz uma das personagens, mas a única coisa a ser feita: sobreviver. A outros, no entanto, a desordem do mundo, a queda das instituições e dos pilares da civilização humana não serão motivação suficiente para chegar a entender-se a si mesmo como incapaz de realizar o bem e a justiça. Os valores que nos forjaram a humanidade, alcançados em milênios de travessia pelo mundo, não podem ser jogados fora em decorrência de um fim do mundo provocado por nós mesmos. Somos em tudo a doença e a cura: em nós está o fracasso e a vitória, o bem e o mal. O que não se pode abrir mão é de escolher a qual senhor servir.

A dimensão da escolha, nas quatro temporadas da série, encontra uma sua justificação em nada ingênua ou despropositada. Pois se escolher é optar entre o bem e o mal, entre fazer o que é certo ou humano e aquilo que diz respeito ao momento oportuno da sobrevivência – em outras palavras, a escolha entre o que diz a consciência em razão do bem e da verdade e o que diz o corpo e o instinto de autopreservação, The Walking Dead propõe, pelo ambiente hostil de uma vida em tudo devotada à sobrevivência em meio ao caos, que a dimensão de humanidade em nós pode e deve ser mantida e alimentada. Isso porque a autopreservação, como um sentido de vida, é ilusória: nada é mais incerto que a tentativa de fugir da morte. Mas se as decisões em vista da preservação de si mesmo não são senão paliativas e fadadas ao momento em que o destino chegará a subvertê-la, a decisão em vista do bem e da honra pela verdade será sempre uma possibilidade concreta e digna de uma vida vivida em toda a sua humanidade. Viver sem essa dimensão humana da escolha livre e consciente em fazer o bem e o justo, ainda que isso lhe traga a morte, face ao instinto animal em se preservar não se sabe até quando nem para que, é não chegar a viver uma vida digna de ser vivida. Muitos homens aparentemente normais não estão senão infectados pelo vírus da impiedade e da imoralidade, que lhes apaga qualquer traço de humanidade porque lhes submete a apetites e não à inteligência. A lição em The Walking Dead, creio estar certo, não pode ter sido mais retumbante – ainda que tenha sido expressão de impressões inconscientes de seus criadores.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Tolstói - A morte de Ivan Ilitch


Demorei a pincelar alguma coisa sobre o último grande livro que li. Talvez pela escassez de tempo em parar e escrever algo dessas coisas que não fazem parte de nossas ocupações diárias por obrigação mas por prazer. Talvez não: certamente foi pela enorme dificuldade de se falar sobre um pequeno grande livro como A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi. Não por acaso considerada uma das mais perfeitas das novelas da literatura mundial, a cena de Ilitch é suave e tenebrosa, cotidiana e espetacular, com uma prosa que beira o pueril dos contos infantis, enquanto irrompe na mais vasta profundeza da alma humana e em suas terríveis contradições. De leitura fácil e instigante, o enredo parece deveras banal ao leitor desatento às questões que levam Ilitch da nobre desenvoltura ao abismo de existir. É mesmo um conflito sobre a existência o que Tolstoi parece querer marcar aqui, em páginas de uma gratidão sem igual com a vida ao mesmo tempo em que não abre mão de lhe mostrar a crueza e tragédia, quase que uma sua gratuidade, se não fosse a morte. Talvez seja a morte a personagem principal desta novela, pois que a morte é a sombra permanente de existir, e mesmo assim quase sempre se faz obscurecida pelo nosso dia a dia frenético em sobreviver - e com que finalidade? Poderíamos mesmo saber que vivemos sem encararmos no cotidiano a intensidade do que para nós significa a morte? Talvez essa seja a melhor explicação para o efeito estilístico da prosa suave e comumente simples de Tolstoi: mostrar a simplicidade de um cotidiano marcado pelos conflitos em viver, ao mesmo tempo em que faz caminhar seu protagonista até a uma consciência inalienável sobre a morte e a sua necessidade para uma vida digna de ser vivida. Porque uma vida não refletida, dizia Sócrates na voz de Platão, não merece ser vivida - e uma vida refletida é sempre uma preparação para a morte, uma filosofia em que antes de sermos filósofos somos humanos, demasiadamente humanos. A novela de Tolstoi é algo como um quadro banal sobre o fim trágico de nossa existência, pintado com tintas de uma terrível simplicidade, porque nenhuma finalidade deveria ser mais simples ao homem que a consciência do seu fim.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Brasil, um país de...


Às vezes soa esquisito ou mesmo ingrato, confesso, ter de apontar tão-somente os defeitos da "pátria amada" que nos criou e nos deixa ainda viver. Confesso que tento aprimorar os bons olhos de minha alma para não ver a queda vertiginosa que a cultura brasileira vem sofrendo nos últimos anos, sem uma música ou uma literatura que prestem, sem qualquer indício de uma casta pensante lúcida e uma plêiade de artistas bem dotados quer do mais vasto trato com o popular, quer do mais elevado diálogo com a transcendência. Todo aquele que tem um mínimo conhecimento das sociedades humanas sabe que nenhuma cultura pode chegar a sobreviver sem tais indivíduos, e não seria de todo impróprio dizer que em um futuro próximo, a continuar o atual estado de coisas, a vida brasileira se tornará tão infrutífera como são os desertos. E a imagem talvez renda seus frutos: pois se nos desertos a fauna e flora precisam se adaptar a fim de poderem suportar os escassos recursos, também nós por aqui precisamos nos adaptar, se queremos preservar alguma sanidade. Em um lugar onde falta produtividade cultural, abundam as salivas animalescas dos famintos sem espírito.
A falta de vida cultural não é tão facilmente diagnosticada, sobretudo por quem desconheça o que seja uma vida cultural. No caso do Brasil, contudo, um estudante atento rapidamente vai perceber pelas aulas de história e de literatura que a cultura brasileira durante os anos 20 até os anos 60 e 70 foi um oceano de grandes mentes, de discussões políticas e artísticas que vieram a formar gerações, e que hoje não passam de um capítulo nos livros didáticos, sem que saibamos muito bem como aquilo poderia ter acontecido e como é que fazemos acontecer de novo. Muitos duvidariam da necessidade de uma tal efervescência cultural vir a se realizar em nossos dias. O deserto produz miragens. É por isso que enxergamos em Paulo Coelho ou em Veríssimo os maiores representantes das letras tupiniquins, sem nos esquecermos de Caetano e de Chico, elevados ao posto de grandes poetas por quem nunca parou para ler grande poesia. Na falta de água em meio à seca, qualquer líquido pode satisfazer a sede.
O reflexo dessas miragens luxuriantes, e demasiadamente compensadoras, se projeta no meio social quando tivermos que lidar com as situações do nosso dia a dia. Como ao ler pesquisas, por exemplo, sem que saibamos avaliar o que dizem realmente os dados, isso se eles não vierem falseados com algum interesse obscuro, como foram os últimos dados do IPEA. O desagrado com o resultado de pesquisas do IBGE tem feito o governo preterir verbas para a instituição, talvez para mostrar ao IBGE que é o modo à la IPEA que mais lhe interessa agora. Isso porque é preciso falsear os dados, superfaturar obras para a Copa e promover um rombo na Petrobrás muito maior que qualquer mensalão poderia cobrir. Deve-se mesmo esvaziar os cofres públicos e subjugar as forças policiais e a suprema corte, promovendo a mais generalizada corrupção que já se viu por aqui. Afinal, um povo com fome e sede não encontra forças para lutar e, em meio ao deserto do real em que estamos nos encerrando, o oásis que a terra brasileira produz vai parar nos bolsos da politicalha. 
Nada poderia retratar em alto e bom som a miséria desse país que dois fatos recentes bastante simbólicos. O primeiro deles veio devido aos dados falseados da pesquisa do IPEA, quando ativistas decidiram lutar contra a cultura e a opressão machistas por meio de uma campanha "Não mereço ser estuprada". Pois se a campanha tinha o enfoque de não culpar as mulheres pela violência dos homens, há aqui um problema: se as ativistas defendiam não merecer serem estupradas, deixava-se subentendido que as vítimas de estupro de algum modo mereceriam! Mas as incoerências não param aí. O segundo caso é ainda mais simbólico: o tal "professor" de filosofia que intitulou a Popozuda como "grande pensadora contemporânea" não mostrou a mínima compreensão de que o trecho escolhido do funk era ele mesmo uma prova da falta de pensamento, ainda que fosse pequeno. Alguém que não entenda que "tiro, porrada e bomba" nada tem de pensamento nem deveria se aproximar da filosofia... Mas o descaso e a inércia por aqui são tão grandes que não posso me arrepender de trazer de novo nossos defeitos ao invés das grandes coisas. Porque enquanto se assiste à TV e se espera ansioso pelo hexa da seleção, o que tem acontecido de realmente grandioso está a nos prejudicar. Ainda que não possamos enxergar o país do futuro nesse deserto brasileiro, a terra prometida tem sido uma miragem, porque dela somos privados, como os judeus no Egito, por nossa própria ignorância.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Reminiscência




A intuição tão clara,
embora de relance,
surgida hora rara
ao menos deu-me a chance;
com força veio ao peito
não a luz da aurora
mas o ar rarefeito
de ver uma senhora
ao seu lado uma criança,
corpos inanimados
me pediam esperança;
na voz, serena calma:
vereis admirados
que a vida segue a alma...