Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

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A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.

sábado, 13 de março de 2010

O menino e a ave



Quando o menino avistou uma ave no chão, naquele momento em que as asas do animal estavam feridas e sangravam, ele sentiu seu corpo remoer-se por dentro numa mistura de asco e prazer. Não entendia, mas soube depois - porque o fato de não ter asas fez aquela pequena ave por um momento render-se aos seus pés, como se implorasse sua compaixão. O sofrimento do animal lhe partiu o peito em dor, as lágrimas desciam pelo rosto, mas ele permaneceu imóvel, sem esboçar reação. O doce da lágrima lhe tocou a boca, o peito disparava em ritmos intensos, incontroláveis. O sol se escondia aos poucos no horizonte. E ali ele permaneceu até que a lua lhe iluminasse o rosto, novamente revelando as lágrimas que não podia conter pela morte do animal que lhe pedira ajuda, mas que ele não pôde ajudar. Não entendia, mas soube depois - porque ele, embora sonhasse dia e noite com isso, não sabia voar.
E voltou para casa um pouco mais feliz.

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