A frase do tio Rangel em A Ladeira da Memória é uma profecia: "o romancista salvará o homem". De fato, a salvação aqui é pessoal, única, própria mesmo do poeta e do escritor, que não encontra melhor forma de sublimar seus temores e prazeres senão pela literatura. Deve-se escrever, porém, para oferecer em alguma medida salvação a outrem. E aqui não se trata daquela mesma do Cristo ou do Buda. A salvação de que se trata em literatura é, por assim dizer, um caminho prévio ao da religião. A literatura, ao ligar a pessoa, em suas vivências internas, à sua consciência, salva o homem do animal que permanece em nós; a religião, ao ligar o divino que há em nós a Deus, salva o homem de enclausurar-se em sua humanidade. A religião é causa final; a literatura, causa eficiente. São formas distintas de salvação, mas são complementares. É impossível acreditar que o animal sem consciência alcançará a essência divina que o habita e o levará ao encontro do Ser Supremo. É como se houvesse a necessidade de uma salvação prévia, que a literatura pode oferecer. Se escrevo não é senão para salvar-me a mim e aos leitores que, como eu, estiverem dispostos a mergulhar no fundo de si mesmos, para ver o que lá se esconde de mais aterrador e de mais belo.
Ou como mostrar a alma quando não se pode olhá-la no espelho, embora ela esteja ali, nos observando...
Por que estas pulsões ocêanicas?
Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?
***
A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.
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A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.
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quinta-feira, 21 de maio de 2015
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Necessidade Simbólica
O que difere homens de animais, grosso modo, é a necessidade que temos de simbolizar. Um símbolo é sensivelmente diferente de um signo: animais também parecem possuir uma capacidade de relacionar fatos e suas repetições a um esquema que lhes significa algo, sempre a partir da experiência obtida por tentativa e erro. Ao homem, porém, não é suficiente apenas olhar o chão molhado e perceber a probabilidade de haver chovido, ou observar os frutos de uma árvore e lhes identificar a madureza ou não. A linguagem humana não tece suas palavras apenas como signo, com o intuito de indicar as coisas que elas denotam, a chuva ou a fruta, mas abarca ainda uma exigência de poder igualmente representá-las, quer dizer, de lhes conferir uma função conotativa. Toda experiência humana do mundo pode corresponder a essa exigência, em tornar-se no fim um símbolo. Prova disso são o fenômeno religioso, em sua estrutura mitológica e ritualística, e o artístico, que tiram o cotidiano de sua banalidade existencial, bem como a função de sonhar que o cérebro executa durante o sono. O sonho, na verdade, parece ser o mais fundamental dos fenômenos descritos: no fundo, tanto a arte quanto a religião podem ser entendidos como fenômenos a ele imbricados. E no sonho percebemos um uso da linguagem ausente de qualquer interesse basicamente denotativo, que se mantém na vigília como o mecanismo mais prático no uso da língua, para oferecer entre palavras, ideias e coisas uma estrutura que não pode ser tida senão como simbólica. Negá-la como essencialmente humana é negar aquilo que nos faz ser quem somos. O homem sem o apreço e um constante desenvolvimento de sua capacidade simbólica acaba encerrado no que lhe compete de mais animalesco e bárbaro. A desumanização, que sempre é possível identificar em épocas históricas diversas e a qual o homem está inevitavelmente sujeito, dá-se exatamente pela perda da capacidade de sonhar as próprias vivências em toda a sua desejável simbologia.
Pintura deIgor Samsonov
domingo, 10 de novembro de 2013
Palavras-(á)vidas
Muita
gente acredita que está na falta de amor e no egoísmo natural do homem a
causa dos constantes desentendimentos que as relações com o outro nos
apresentam, quando quase sempre o que há é falta de uma boa capacidade
de interpretar o que o outro está dizendo, entendê-lo a partir de si
mesmo e não de nós. Quando digo nas minhas aulas que aprender a dominar o
português e ser capaz de interpretar um texto são ensinamentos que
resultam em transformar-se a si mesmo e a sua forma de existir no mundo,
não exagero: a vida humana exige um contato constante com as palavras
para não terminar em vexame.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Platão e Aristóteles, e a escrita da filosofia
Talvez a filosofia nos tenha mostrado, em sua origem, uma nada casual sobrevivência de textos, que nos trazem uma importante distinção de práticas filosóficas necessárias. Enquanto Platão, preocupado em deixar o mais bem caracterizado possível aquilo que tanto o impactou, nos restos de anos que viveu do V século ao lado de Sócrates, acreditando ser proveitoso e mesmo possível reproduzir em outros seu próprio espanto por aquele saber nascente, nada escreveu sobre si mesmo nem sobre seus pensamentos em forma doutrinal; de Aristóteles, por outro lado, e tendo sido mesmo um escritor reverenciado pela bela forma entre os que leram seus dramas, não nos restaram senão rascunhos e anotações de aula, em uma forma que se insere em algo entre o deselegante e o intragável. Mas para além do fato estilístico que parece ter sido deveras imprescindível a esses grandes filósofos, o destino nos reservou dois modos de preparação ou de produção do saber em um homem de estudos: um exotérico, destinado aos não iniciados, e cujo estilo, no melhor que pode haver da poesia, serve aos fins de despertá-los para o espanto que causa a busca pelo saber; e outro esotérico, aos iniciados na matéria, que serve ou como recordação do que foi trabalhado de modo oral ou como apontamentos para o que o será, mas nunca como algo a ser destinado a quem não tenha ainda sentido o impulso para a filosofia. E não parece que essa lição se perdeu ao longo do tempo?
Nietzsche e eu
Penso haver uma diferença de perspectiva entre o sr. Nietzsche e eu: enquanto vasculho o homem do passado, o discípulo de Zarathustra vislumbrava o do futuro. Será isso, contudo, realmente uma 'diferença'?
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
O fundamental na vida
Há dois tipos básicos de modo de vida: um dissolvente, outro integrante. Por serem um estilo de vida cujo fruto remonta aos tipos básicos de pensamento, todo homem em algum momento já provou de ambos os modos, sem talvez ter se dado conta disso. Mas para além de provar, um modo de vida é uma escolha. E ai entende-se que uma consciência vívida que perceba as nuances de cada um dos estilos é o primeiro passo para qualquer decisão mais profunda.
domingo, 6 de maio de 2012
Existem aqueles que vivem por prazer ou pelo sucesso, e se precupam excessivamente consigo mesmos; existem aqueles que vivem pelos outros, e agem como que gratuitamente a fim de realizarem o bem. Todas estas três formas de realização existencial são em si mesmas insatisfatórias: o segredo não está em viver por esses bens, quaisquer sejam eles, mas em encontrar o bem de estar vivo e de poder viver por aquilo que se deve viver. A existência é o maior dos nossos bens.
segunda-feira, 28 de março de 2011
segunda-feira, 17 de maio de 2010

Quando a distância separa dos pontos, duas margens, dois instantes que desejariam estar entrelaçados, próximos, pontualmente unidos - então se fez nascer um fluxo, um afluir. Então se entreviu o sentido de ser do mundo, no mundo, em tudo. Esse espaço que há entre os dois pontos não é mais que um desejo. O mundo é vontade e sua representação.
sexta-feira, 12 de março de 2010
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Aforismos III
domingo, 16 de novembro de 2008
Aforismos II
Somos um universo imerso em nós mesmos -
E como desejei esta liberdade!
***
Queria ser melhor do que sou,
E descobri que nada é melhor do que ser...
***
Os que pensam, agem com cautela
Os que agem, jamais se deixam abater
Os que se abatem, são vencidos pelo medo.
E como desejei esta liberdade!
***
Queria ser melhor do que sou,
E descobri que nada é melhor do que ser...
***
Os que pensam, agem com cautela
Os que agem, jamais se deixam abater
Os que se abatem, são vencidos pelo medo.
sábado, 8 de novembro de 2008
Aforismos
A precisão nos faz perder as nuances que há naquilo que cada vez mais precisamos.
....
O mergulho na imaginação pela arte,
O mergulho no mistério pela religião,
O mergulho na razão pela filosofia,
O mergulho no sentir pelo sexo -
Todos são formas de arrebatamento!
....
Há algo de admirável e de mítico na figura da prostituta
- Talvez por ser ela a única capaz de cobrar pelo prazer,
e de sofrer por isso.
....
O mergulho na imaginação pela arte,
O mergulho no mistério pela religião,
O mergulho na razão pela filosofia,
O mergulho no sentir pelo sexo -
Todos são formas de arrebatamento!
....
Há algo de admirável e de mítico na figura da prostituta
- Talvez por ser ela a única capaz de cobrar pelo prazer,
e de sofrer por isso.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Eu preciso de você!
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