Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Notas sobre O doador de memória e a filosofia




A avalanche dos contos e das histórias sobre o fim catastrófico da civilização ocidental, como a conhecemos hoje, tem servido como tema para romances e produções cinematográficas as mais diversas – e não são poucas as tentativas de se imaginar, após o fim, uma nova forma de civilização, sempre mais organizada, mais coesa, mais avançada; sempre menos complexa, menos profunda, menos humana. O tom de catástrofe face àquilo que o homem alcançou é o estopim para que se conceba este mesmo homem na catástrofe da sua desumanização, como uma certa pena pelos seus excessos.

Dessas tentativas, cito alguns projetos antigos, como A Ilha, Aeon Flux e Equilibrium, ou os mais recentes, como Divergente, Jogos Vorazes e Maze Runner, por exemplo. É igualmente enquanto um projeto sobre um modo de vida pós-apocalíptico que O doador de memórias se apresenta ao leitor (sem nos esquecermos também de sua adaptação recente ao cinema), procurando oferecer outras formas de enxergar a convivência humana e o que seria a melhor forma de realizar sua necessidade de ordem.

O doador de memórias é o típico bestseller do ramo, conjugando os elementos fundamentais de uma trama desse nível, se não fosse pela falta de algo que pôde ter frustrado muitos de seus leitores: as cenas de ação. Para mim contudo, este é o seu diferencial. Seus fudamentos, ao se basearem mais no enredo que no suspense e na atividade das personagens (o que não acontece com a adaptação para o cinema), convida o leitor a pensar junto, a elaborar aos poucos sob que condições poderia haver uma sociedade avançada como essa em que Jonas irá se descobrir.

A comunidade em que Jonas está é o que Popper chamou de sociedade fechada. Controlada por regras claramente expressas e rigidamente exigidas, a cidade se pauta na divisão das funções regida pela atribuição por naturalidade ou familiaridade, estipuladas a critério de uma casta governante, cuja missão é zelar pela ordem no cumprimento das leis e na disposição dos cidadãos segundo o cargo que lhes compete. Numa cidade onde a cordialidade se materializa nos bons modos e no evitar a descortesia, onde a divisão diária das funções é a essência lapidar do modo de viver e onde a aspiração mais importante de uma existência está em chegar, quando idoso e incapaz de produzir, a ser Dispensado da comunidade e mandado para Alhures (um lugar que seria fora da comunidade, desconhecido mas desejado por todos, e que depois Jonas descobrirá ser uma “pena de morte”), não se poderia esperar haverem decisões, escolhas ou dilemas. Não há escolhas onde não há alternativas – e uma cidade privada de cores, de memórias e de sofrimento é, ao fim, um paraíso totalitarista.

Soa um tanto familiar à proposta tomada por Platão na República a forma com que se dispõem as pessoas pela comunidade. Os núcleos familiares são formados por pais e mães unidos a partir da orientação da casta dos Anciãos, segundo a afinidade percebida entre ambos, e lhes são dados no máximo duas crianças para a criação após receberem o nome ao completar um ano de idade. Mas as semelhanças com a República param por aí. Cada novo ano é um passo para o desenvolvimento individual e para a inserção do indivíduo na cidade. Cada novo ano é uma etapa até à fase adulta, chegada aos Doze com a atribuição de uma função a ser exercida. Os impulsos são extintos quase por completo: toma-se pílulas para aliviar a dor e para evitar a sexualidade, os contatos físicos só são permitidos no seio da família, onde se narram os sonhos pela manhã e os sentimentos mais importantes sentidos ao longo do dia. O ensino é comum a todos, do mesmo modo que os momentos livres. Segundo se saberá em certo momento do livro, foi a escolha pela Mesmice que permitiu à cidade sua organização e presteza na disposição das vidas. Foi a Mesmice que permitiu aos homens sustentarem a convivência sem sofrimento. Pode ser que no fundo, e isso nos leva de novo à República, uma cidade disposta dessa forma não deva senão estar fadada à mesmice. E jamais é possível supor a existência eterna da mesmice.

O livro talvez gire mesmo em torno do pólo Mesmice-Sofrimento, que estará encerrado na ausência ou na apreensão das memórias. O livro fala sobre o peso e o papel das memórias para a vida humana. A sociedade fechada de Jonas só se tornou possível pela isenção dos seus cidadãos em terem acesso a memórias. A memória é entendida de duas formas: são ao mesmo tempo tanto os fatos quanto as sensações que lhes acompanham, porque guardamos sempre os fatos e as suas sensações. A Mesmice só é possível a partir da restrição da memória a escassos fatos e suas sensações, fatos e sensações que em suma não causem o desarranjo das funções, que não provoquem dúvidas face ao cotidiano regularizado, que não levem ao perguntar e à possibilidade de se ter que tomar uma escolha.

A autora chega com isso quase a constatar, por metáfora, que a liberdade é sofrimento, como Sartre e o existencialismo apregoavam, e que se pode mesmo optar por uma vida imersa em Mesmice para livrar-se do peso das decisões. No fundo, a liberdade é o fundamento de nossa humanidade mesmo quando se opta por não saber e com isso se deixe levar pelo fluxo da rotina. A Mesmice é a escolha por não ter de escolher e, com isso, sofrer consequências. Uma vida sem escolhas é uma vida sem cor, entregue às pílulas que amenizam a dor e evitam o prazer. A Mesmice é escolher a fuga. A memória é parte necessária da vida humana e de sua liberdade. A memória é própria ao homem corajoso, que não teme experimentar o mundo e as sensações que lhe seguem. É preciso ter coragem para assumiar a liberdade, mesmo que a princípio não tenhamos escolhido obtê-la.

Jonas fora escolhido, é verdade, e o foi por sua coragem. Escolhido para o cargo mais honroso da comunidade, porque o cargo daquele que padece pelo coletivo, assume a função de receber as memórias de gerações e mais gerações humanas, de fatos e de sensações que já não existem mais, porque esquecidas ou proibidas. Jonas é escolhido a ter liberdade, e isso em um lugar isento de escolhas é uma honra. A decisão corajosa em se tornar um Recebedor de Memórias acaba, no fim, nascendo de sua própria natureza. Sua atitude inquieta, curiosa e quase sempre desconfiada o levou, como levou o Neo de Matrix, a querer respostas. Não apenas inteligência e integridade são qualidades importantes apontadas no jovem pelos Anciãos, mas sobretudo a coragem é o primeiro passo para se lançar na busca de respostas. É a busca por saber que o tornará ao fim um homem sábio. Mas, inegavelmente, a sabedoria depende da coragem. É próprio a uma natureza inquieta ser inconformada com a Mesmice, e nessa inconformação está a condição para a sabedoria.

A coragem para procurar respostas produz um olhar diferente para as coisas, para aquilo que as demais pessoas sempre veem da mesma forma. A Mesmice do olhar é a condição do senso comum. O olhar diferente é a condição do filósofo. E aqui voltamos novamente à República e à sua definição da natureza filosófica. Pela coragem, alguns se darão conta de que aquilo que as pessoas tomam por ser real no fundo é uma imagem da verdadeira realidade. A maioria dos homens se comportam como em um espetáculo teatral, sem se darem conta de que a realidade está para além. O filósofo é por natureza um amante do espetáculo da verdade. Jonas não faz senão cumprir certa correspondência com o papel filosófico em sua sociedade fechada. Esta condição do filósofo de ver além do que a maioria vê é o último dos aspectos que lhe definem para o cargo. Ver Além é perceber o que as coisas realmente são, além de suas aparências, além da precisão da linguagem que enclausura a experiência no dizer, o pensar no dizer. Ter a capacidade de Ver Além, pode-se dizer, faz de Jonas no livro de Lois Lowry o protótipo da natureza filosófica desperta em meio à Mesmice da maioria das pessoas, sempre satisfeitas se puderem escapar do sofrimento em troca de sua liberdade. Cabe ao filósofo, pela capacidade de Ver Além, conservar a liberdade humana por meio da fluência das memórias que a tornam possível, ainda que tenha de sofrer por isso. É não é por acaso que o treinamento de Jonas e do filósofo lhes exigem o suportar o sofrimento e a rejeição social. Jonas é escolhido para ser um excluído.

O Encontro com a verdade é doloroso. O filósofo na República mal consegue ver as coisas do mundo, e ao retornar para a caverna é tido por estranho e louco. A experiência de Jonas ao experimentar a fluência de memórias, de sensações e frustrações, chega a provocar dor física. É quase impossível dizer o que sente e o que passa a enxergar. As pessoas não o entenderão. É preciso levá-las a ver. Mas isso não é possível. Seu cargo na sociedade fechada cumpre exatamente a função de ser o único a quem é dado saber, sofrer, escolher. Encarar a verdade e ver de fora a vida das pessoas com as quais ele tranquilamente habitava, saber sobre o futuro que lhes espera, sobre um presente condenado à ignorância e à ausência de escolhas, sobre um passado que não passa de falsas memórias – é terrível a um jovem de Doze anos suportar este fardo, como o foi para a jovem que lhe precedera, Rosemary, e como o é para o atual Doador de Memórias. Não há escape a não ser fugir da sociedade fechada para descobrir Alhures. O destino escolhido por Jonas, no entanto, não fora o mesmo de Sócrates. Bem poucos são os que escolheriam para si o destino filosófico de morrer pela filosofia. Jonas escolheu a fuga, mas ela lhe foi uma escolha dupla pela vida, a sua e a do pequeno Gabriel. Ficamos sem saber, ao fim do livro, se lhe chegou a ser uma escolha acertada.

São as cenas que compõem os próximos livros da série.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O fundamental na vida II


Vivemos, e estar vivo é ser constante e avassaladoramente atravessado por preocupações de toda natureza, por incômodos, angústias que podem se resumir a um sofrimento humano substancial, a um sofrer com as urgências de coisas que sabemos, no mais íntimo, serem fúteis, pueris, etéreas, e ainda assim desejá-las, não se sabe bem por quê. E qual não seria o propósito de todas essas preocupações dispersantes senão uma capacidade de focar, uma atenção integrante, que nos faz perpassar o sofrimento da vida com a fina certeza de sermos algo, sermos alguém que sofre? A atenção é a atividade humana mais digna, mais elevada, e por isso mais difícil - khalepós tà kalá: difíceis (são) as coisas belas, como diziam os gregos. Ter ciência da prioridade de um comportamento atencional, não disperso em meio às preocupações, e realizá-lo pode se traduzir no caminho que nos conduz até o nosso Eu imortal.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Romance e vida


A literatura, a escrita de ordem poética e romântica, mais no romance que na própria poesia, como sempre foi mais na prosa que nos versos, é a linguagem mais complexa que temos para descrever, pensar e elaborar realidades complexas. A linguagem tratadística e científica não poderia dar conta, por exemplo, de elaborar sobre a complexidade da vida humana de um indivíduo que seja. Nem mesmo um romance que o descreva poderia dar conta de uma realidade tão complexa quanto uma vida humana - mas já aqui podemos aspirar a alguma melhor aproximação. O romance é a linguagem mais elevada da experiência humana, e ler romances deveria ser a primeira obrigação moral de todo indivíduo. Mas há alguém hoje que tenha ouvidos para ouvir obrigações morais? Não somos a geração crescida sob os influxos da "liberdade" existencialista vivenciada como libertinagem por Woodstock? Não somos bem mais sensíveis a ouvir a vós que prega um homem "além do bem e do mal", sem moral e quaisquer outras formas de tolhimento? Abandonamos a linguagem a um só tempo concreta e universal da literatura pelo abstratismo das ciências e espiritualidades modernas, e perdemos com isso aquela mesma elevação que o homem comum observava no cair de uma folha. Hoje já não vemos mais folhas caírem como antigamente.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mario Ferreira dos Santos entre nós...

A obra de Mario Ferreira dos Santos, embora de uma vastidão invejável a qualquer Descartes ou Kant, permanece quase que inteiramente desconhecida do grande público de letras do Brasil. E isso se deve a várias razões; uma delas é que o forte apelo de nossa mente tupiniquim pela filosofia estrangeira nos bloqueou a sequer considerarmos a possibilidade de uma "filosofia no Brasil", que dirá a de nomearmos alguém das terras de cá como "filósofo". Obviamente, isto é um preconceito, tão grosseiro quanto qualquer definição que se possa fazer de o que seja a filosofia, sem incorrer em uma limitação pavorosa. Somos tão capazes de pensar o mundo e a nós mesmos como qualquer ser antropológico habitante deste planeta. Fazemos questão, no entanto, de nos atermos ao produto pronto, importado via terceiros, que tem massificado e alienado nosso pensamento frente às reais possibilidades que temos de compreendermos o homem e contribuirmos para o desenvolvimento da humanidade.
Outra razão de tamanho descaso está em que, aqueles poucos que se sentiram e se sentem agraciados por terem encontrado uma figura tão singular em solo brasileiro, se pensarmos o que pensamos de nós mesmos enquanto país, fazem muito pouco para resplandecer a luz de Ferreira aos menos afortunados. Até o momento, existiam apenas reedições de 4 dos seus livros, donde apenas um deles é imprescindível para a compreensão de seu legado enquanto filósofo: Lógica e Dialética é alguma coisa de bastante oportuna aos ares pouco frescos da mente filosófica atual, e sequer nos foi apresentada em uma edição cuidadosa e crítica, como se exigem os padrões atuais de publicação. Com muitos erros de impressão, notas confusas e mal trabalhadas, e uma introdução que beira ao folhetim muito mais que ao padrão de uma obra como esta que se dá a introduzir, o livro Lógica e Dialética se perde entre os demais livros da editora cristã Paulus como mais um livro. Se não fosse a iniciativa da editora É realizações, que vem publicando outras tantas importantes obras filosóficas, desconhecidas do público brasileiro, inclusive a de Mário Ferreira dos Santos, teríamos que lamentar esse descaso monumental com alguém que merecia uma apreciação, senão devocional, ao menos honrada.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tasso da Silveira - Uma escola, um poeta: uma tragédia


A loucura fatal de nossa sociedade mais uma vez se estampou nos noticiários e diante dos olhos de todos. Um jovem possuído por problemas mentais e ideológicos assassinou aleatoriamente crianças em uma escola no bairro de Realengo, no Rio, deixando marcas incontornáveis. O próprio assassino havia sido vítima de inúmeras marcas da vida, do seu contexto familiar e social. As marcas de nossa cultura esquizofrênica, agonizante, em vias de ser aplaudida em um seu alvoroço descomunal pela insistente necessidade de ordem, de moral, de normalidade, quando tudo o que se exige não condiz com o que é ofertado. A lei do mercado rege a vida cotidiana: a procura encontra ampla oferta, embora o aviso seja sempre "não procure", "não consuma". Os mais frágeis não resistem. Sucumbem ao teor alcoólico da lógica capital. Viciam-se com a cultura florida e multifacetada dos tempos tecnológicos. E tornam-se antissociais, perigosos, revolucionários. Projetam sobre a mesma sociedade que os instiga um sentimento permanente de desregramento, de dissolução, de perversão. Consuma e não suma: seja. A fatalidade do destino de nosso tempo se estampa, mais uma vez. Produz o espanto, a perplexidade, o silêncio. A escola de Realengo voltará à normalidade, mas não a de antes. O silêncio fere. Talvez o poeta que lhe dá o nome possa nos dizer, ao fim, o que fica de todo esse estampar-se de uma tragédia.


Fronteira


Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Tasso da Silveira, Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.74. (Literatura brasileira, 9C)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Qual é de fato o movimento da terra?


Antes de confiarmos no que vemos, faz-se preciso ouvir a voz da dúvida e da imprecisão, como se fossem músicas em constante harmonia com nosso efêmero existir.

Vale a pena uma apreciação atenta da filósofa Hipátia, brilhantemente reproduzida em Ágora.

http://www.agoralapelicula.com/

domingo, 4 de julho de 2010

Beautiful, Dirty, Rich!



Alguém poderia dizer que a nova lady fatal que a música pop ganhou nos últimos anos seja apenas isso - apenas uma dentre inúmeras outras ladys fatais da música pop. A exemplo da maravilhosa Beyoncé, da caliente Shakira, de Rihana e o conjunto de beldades do Pussycat dolls, ou qualquer das inúmeras outras divas que circulam pelo mundo e pela internet, no melhor estilo consuma-o-que-lhe-agrada, Lady Gaga parece ter chegado no mundo dos paparazzis para ficar, já que sua música e seus vídeos são tão envolventes e tão polêmicos quanto deseja seu público, que só faz aumentar. Mas ela nos oferece mais. A lady fatal de Bad Romance não é uma cópia desmerecida da deusa Like a Virgin, não é uma Spears perdida em seu processo mimético, nem mesmo um produto meramente frabricado a partir da genialidade de Michael Jackson e dos mestres do cinema. Gaga se cria a si mesma, é verdade, como um produto que visa unicamente a fama, o público, o mundo. Um produto, entretanto, que emerge em sua agressividade objetiva com a força de uma lenda, recolhendo das mais variadas fontes, as melhores, o seu melhor a oferecer, pois como uma amante desta Fame Monster, Gaga sabe exatamente o tempo que ela pode durar. E ela quer mais, quer ir além do tempo. A eternidade é o limite para aqueles que se apoiam sobre os ombros de gigantes, desde que ele mesmo tenha tamanho suficiente para subir em seus ombros. E a musa sexual de Alejandro é sim, como se vê, uma gigante. Embora próxima demais de nós, o que nos impeça de ver sua real grandeza. Talvez, quem sabe, em uma época ulterior, onde algum outro gigante se apoiará sobre seus ombros, para continuar a caminhada, sem chegar ao infinito da potência humana.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Uma triste despedida


As letras portuguesas, que diz respeito aqui a todos os países que adotaram a língua de Portugal, tiveram uma triste notícia nesta sexta-feira, dia 19 - Morria aos 87 anos um dos maiores escritores de nossa língua, para mim o maior de nossos romancistas vivos, mas que nos deixou, infelizmente. José Saramago era inconfundivelmente um brilhante articulador de discursos, um hábil perito em criar enredos e recriar mundos imaginados. Seus livros são um atestado de que a palavra em português possui uma força própria, capaz de seduzir, envolver e provocar qualquer homem que esteja diante de um texto seu. O modo próprio que suas histórias foram forjadas sugerem certa dedicação lapidar e escultural, que torna a obra escrita uma instigante obra de arte. Uma obra que vale não apenas pela visitação, mas principalmente pela experiência arrebatadora de ser conduzido por esse mago das palavras ao mais alto prazer provocado pelo sentir poético. Sem dúvidas, Saramago foi mesmo esse mago português de tão belas e inesquecíveis palavras (portuguesas).

Talvez agora de algum modo eu possa retomar minha (desejosa) tentativa de trabalhar cada livro que compõe a obra deste mestre português quando, ao traçar as linhas gerais de seu útlimo livro (Caim, ver comentários nos arquivos), havia me dado a tarefa de pensar os outros livros mais detidamente. Quisera essa vida moderna tão corrida me desse o tempo necessário para tamanho prazer...

terça-feira, 1 de junho de 2010

O gozo do divino - Enigma


Se tivesse agora de me confessar a alguém sobre meus pecados e concupiscências, tenho certeza de que não seria nada muito diferente daquela primeira vez em que tive de comparecer perante o altar ao lado de um padre, para apresentar a Deus (a ele, na verdade) meus deslizes infanto-juvenis. Já naquela época o essencial de minha natureza se revelava: esta mistura que me é própria e que confluía os desejos lascivos de perversidade sexual e os impulsos constantes em busca do divino. A polaridade sexo-divindade ainda se mantém, embora não mais encarnando aquela arrogante pretensão cristã de macular o corpo em favor da alma. Meus desejos mais fortes se coadunam agora numa espécie de indissociável relação erótica, amorosa, divinal. O prazer suscitado pelo corpo, as sensações de gozo e de fascínio pela prática sexual estão como que imbricadas, sem nenhuma condenação, aos desejos pelo prazer em alcançar o divino. Poderia ser que essa relação revelasse uma tentativa desesperada de tornar santo o promíscuo, mas ao contrário – é antes o divino que se mostra tão mais celestial e intenso quanto for mais intenso e profundo o gozo alcançado pelo sexo. Em outras palavras, não há como negar que o prazer de tocar o próprio ser dos deuses é admiravelmente similar ao orgasmo incontrolável e avassalador. Aquela imagem de um panteão divino casto e celibatário não condiz com a própria noção da divindade e do que seja o divino

Neste ponto, e talvez Schopenhauer tivesse razão, a Vontade é o que subjaz todas as coisas, é o Ser do mundo e de nós mesmos. E em sendo deste modo, a música é a arte por excelência da possibilidade humana de tocar o divino, de vislumbrá-lo, ou ao menos entrevê-lo, visto que sua realização é a própria manifestação da Vontade essencial. O homem é incapaz de existir sem música, sem esse instrumento que lhe permite aos poucos chegar a ver a divindade em sua incessante pulsão erótica. E embora ao longo das eras a música adote certas características particulares, ela sempre será essa força humana de conexão com o divino. Principalmente a música instrumental, como Nietzsche ressaltava, que em sua essencialidade musical nos faz sucumbir à força da Vontade.

Enigma é um projeto musical alemão de "New Age" dance, que conflui toda a plasticidade envolvente dos instrumentos de diferentes tipos e origens com as batidas entorpecentes da música dance. Aqui não apenas a mente se vê arrebatada, também o corpo é arrastado do mesmo modo e ao mesmo tempo para o fluxo divino da erupção sexual. Não se é capaz de ouvir seus projetos e permanecer insensível ao desejo pelo sexo e ao sabor do manjar dos deuses. A Vontade aqui é plenamente essencial.

Vale a pena se deixar arrebatar...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Caim de novo em novos trajes


A sagacidade crítica com que Saramago mergulha no mundo mítico do judaísmo em seu livro mais recente é de nos tirar o fôlego, e nos leva a uma assustadora jornada pelo conflito entre a fé e a razão de um homem posto a contemplar todos os absurdos que o deus deste povo é capaz de praticar para levar seus súditos à reverência. O berço cultural do cristianismo está aqui transpassado pelo vigor das letras lusitanas de um dos maiores escritores vivos, e talvez o maior deles em língua portuguesa - O Caim de Saramago é um alimento para o espírito inconformado, que encontra na ironia a própria essência da crítica sábia, itinerante, que não se limita aos ditames da racionalidade acadêmica e formal, mas que pulsa no peito aquela serena jovialidade do artista acima das filiações, dos partidarismos, para expressar a angústia da alma em busca da beleza essencial do mundo e de nós mesmos... E não à toa a ironia nasceu juntamente com o espírito filosófico, com a paixão pela descoberta do novo, do outro, de tudo; e é pela ironia que Saramago nos mostra um "novo" antigo testamento, uma "nova" mitologia, um "novo" deus. A força de sua novidade pode ser apreciada neste belo verso a traduzir toda a grandeza que seu texto nos inspira nesta volta ao passado - Havia uma nuvem escura no alto do monte Sinai, ali estava o senhor.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009



Today's a great day,
for the USA, for the world!
Take your seats,
Welcome to inauguration 2009...
Obama's the 44th president of the USA!
Congratulations north-americans,
you made better, you have do it!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

todo furacão tem nome de mulher.
ou deveria.
não que os homens não sejam destrutivos. são.
é que homens destrutivos são tornados. giram cegos em torno de eixo estreito, e pulam em cima de você aleatórios, e fora de órbita e sem causa, chovendo detritos pontiagudos colecionados de outras partes. algumas mulheres também são assim. mas só mulheres de cimento são assim.
já um furacão pertence ao mar.

By Renata Azzi

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Dedicado a comemorar os 60 anos de sua promulgação
Preâmbulo

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum;
Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão;
Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades humanas fundamentais e a observância desses direitos e liberdades;
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso;
agora portanto,
A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos
como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição:
Artigo I.Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo II.1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Artigo III.Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV.Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.
Artigo V.Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo VI.Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo VII.Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo VIII.Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.
Artigo IX.Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo X.Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo XI.1. Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
Artigo XII.Ninguém será sujeito à interferência em sua vida privada, em sua família, em seu lar ou em sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo XIII.1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
Artigo XIV.1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XV.1. Todo homem tem direito a uma nacionalidade.2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo XVI.1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.
Artigo XVII.1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo XVIII.Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.
Artigo XIX.Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo XX.1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo XXI.1. Todo ser humano tem o direito de fazer parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.
Artigo XXII.Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XXIII.1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo XXIV.Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.
Artigo XXV.1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.
Artigo XXVI.1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
Artigo XXVII.1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor.
Artigo XXVIII.Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.
Artigo XXIX.1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XXX.Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Capitu



Todo receio é sempre válido quando se está diante de qualquer tentativa de transpor para imagens as preciosas letras de um gênio da literatura. Mas Machado de Assis não nos legou apenas uma obra-prima, fruto profícuo de sua genialidade: ele inseriu, já a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, seu nome - e junto a ele toda a literatura brasileira - no elevado panteão das letras mais valorosas de toda história da humanidade. Talvez por esse "pequeno" motivo, o receio de acompanhar o trabalho de Luiz Fernando Carvalho tenha sido justificado; embora o resultado que se pôde observar na noite de ontem tenha desfeito qualquer temor mais histérico. A aposta magnífica do diretor em jovens atores; a fantástica performance de Michel Melamed, que sem dúvida apenas testificou aos nossos olhos a qualidade ímpar de sua interpretação; e a indescritível personificação daquela que é a mais impressionante personagem de nossa literatura: a jovem Letícia Persiles parece fazer brotar de seu rosto a mesma perversa e apaixonante aparência de nossa imaginada Capitu - tudo isso é de provocar a alma!

Imagens, sons, vozes: difícil para o espírito manter-se quieto frente à tamanha grandeza estética. Se Hoje é dia de Maria, do mesmo diretor, pareceu não agradar tanto pela estranheza provocada por sua arte, é impossível não sentir em Capitu as próprias letras machadianas soarem como a mais genial de nossas melodias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Monumento ao jovem em formação



Nas obras de escultura de Margarida Santos cumpre-se a Arte. Porque elas contêm os pressupostos da razão de ser da obra de arte - a entrega total do ser liberto de compromissos, entrega feita de paixão, de sinceridade e de abnegação.
Ao contemplá-las mais demoradamente, não posso deixar de reflectir, pois descubro uma pureza de linguagem nas suas formas e linhas, sentindo que traduzem uma ânsia de regresso (mas não retrocesso) a um espaço sagrado, um encontro de signos transcendentes em que a magia, o fantástico, o desconhecido dum mundo interior, são sintomas dum neo-gnosticismo. Surgem-me, assim, como expressão do inconsciente, de um mundo novo (sagrado) em oposição com o mundo do tecnicismo e da sociedade de consumo (profano).
A artista está perto do limiar do espaço sagrado onde reside o Ego, abrindo a passagem ao inconsciente e às formas puras. Tal como em Moore, Brancusi ou Giacometti, as esculturas de Margarida Santos têm um significado tautogórico, com um sentido místico, como se os objectos se desmaterializassem para se tornarem na emanação de conceitos.

João Coutinho
in: Catálogo "Nu feminino" - 1991

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Alegoria da Caverna


Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.– Estou a ver – disse ele.– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?– Sem dúvida.– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?– É forçoso.– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?– Por Zeus, que sim!– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.– É absolutamente forçoso – disse ele.– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?– Muito mais – afirmou.– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?– Seria assim – disse ele.– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.– Pois não!– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.– Necessariamente.– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?– Com certeza.– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?– Com certeza.– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.


Platão, A República, Livro VII - 5ª edição, 2007. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

domingo, 16 de novembro de 2008

Monumentos humanos - demasiado humanos

by Raphael


by Michelangelo


by Da Vinci



Fico pensando na riqueza que foi o período renascentista na história humana. Sua riqueza cultural, espiritual, as obras e o vigor humano que fizeram o mundo em que hoje vivemos, moldaram nossas influências, anunciaram um novo mundo - Mas que novo mundo eles traziam senão a grandeza dos gregos? Que haveria de novo a ser erguido depois dos monumentos construídos pelo espírito humano da Antiguidade? A Grécia - devemos a ela e aos antigos nossa condenação, porque é nela que encontramos nossa redenção! Mas perdoem-me se pareço demasiado grego, se minhas palavras soam tão helênicas! - é que sou demasiadamente humano...

sábado, 15 de novembro de 2008

A música do silêncio

O que é o silêncio? Talvez seja a ausência completa de som – mas não seria ele mesmo um som, uma força sonora, um impulso toante? Porque sendo pura ausência de sons, o silêncio nos leva a um mergulho no nada auditivo, no vazio auscultado, na imensidão de uma sonoridade inexistente, como quando ouvimos uma canção e nos apercebemos de seu fim quando aquela harmonia entre palavras e notas se desfaz para sempre em um vazio profundo. Insisto, contudo – não poderia mesmo este desfazer-se da sonoridade das notas e da voz uma força própria de toda canção? Não haveria no silêncio uma sensação de prazer sonoro que pervade as mais fortes e os mais destoantes graus de notas musicais?




Eis que a música melhor demonstra o que as palavras não conseguem pronunciar – e a música de Beethoven nos eleva ao cume da sonoridade e da grandeza musical pelo prazer sonoro composto em sintonia sinfônica com o silêncio, em harmonia com essa força nula e toante, porque real, existente, viva! Sua nona sinfonia é gerada pelo silêncio. No silêncio de sua audição, sua mente alcança as mais brilhantes notas e sons que a música humana pôde algum dia alcançar – o músico faz mesmo surgir pela força sonora do silêncio, faz mesmo vibrar de sua existência e de seu ser a mais divina harmonia, a mais genial das sinfonias – a mais humana das criações! Ouvir esta que é a maior de todas as canções e de todos os sons compostos é ser capaz de auscultar o silêncio por trás da música, e apreender o que há de mais real e vivo na força silenciosa do mundo – E aquele que não se pôs ainda diante de tão divino som não pode dizer que é capaz de escutar: porque é preciso ouvir o silêncio se quiser algum dia auscultar a música que compõe o homem e o universo.

http://www.4shared.com/file/67416318/c42e862c/Beethoven_Op125_Furtwangler1951.html

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Um momento filosófico, perene...


Assim, avante no caminho da sabedoria, com um bom passo, com firme confiança! Seja você como for, seja sua própria experiência! Livre-se do desgosto com seu ser, perdoe ao seu próprio Eu, pois de toda a forma você tem em si uma escada com cem degraus, pelos quais pode ascender ao conhecimento. A época na qual, com tristeza, você se sente lançado, considera-o feliz por essa fortuna: ela lhe diz que atualmente você partilha experiências de que homens de uma época futura talvez tenham de se privar. Não menospreze ter sido religioso; investigue plenamente como teve um genuíno acesso à arte. Não é possível, exatamente com ajuda de tais experiências, explorar com maior compreensão enormes trechos do passado humano? Não foi precisamente neste chão que às vezes tanto lhe desagrada, no chão do pensamento impuro, que medraram muitos dos esplêndidos frutos da cultura antiga? É preciso ter amado a religião e a arte como a mãe e a nutriz – de outro modo não é possível se tornar sábio. Mas é preciso poder olhar além delas, crescer além delas; permanecendo sob o seu encanto não as compreendemos. Igualmente você deve familiarizar-se com a história e o cauteloso jogo dos pratos da balança: “de um lado – de outro lado”. Faça o caminho de volta, pisando nos rastros que a humanidade fez em sua longa e penosa marcha pelo deserto do passado: assim aprenderá, da maneira mais segura, aonde a humanidade futura não pode ou não deve retornar. E, ao desejar ver antecipadamente, com todas as forças, como será atado o nó do futuro, sua própria vida adquirirá o valor de instrumento e meio para o crescimento. Está em suas mãos fazer com que tudo o que viveu – tentativas, falsos começos, equívocos, ilusões, paixões, seu amor e sua esperança – reduza-se inteiramente a seu objetivo. Este objetivo é tornar-se você mesmo uma cadeia necessária de anéis da cultura, e desta necessidade inferir a necessidade na marcha da cultura em geral. Quando o seu olhar tiver se tornado forte o bastante para ver o fundo, na escura fonte de seu ser e de seus conhecimentos, talvez também se tornem visíveis para você, no espelho dele, as distantes constelações das culturas vindouras. Você acha que uma vida como essa, com tal objetivo, seria árdua demais, despida de coisas agradáveis? Então não aprendeu ainda que não há mel mais doce que o do conhecimento, e que as nuvens de aflição que pairam acima lhe servirão de úberes, dos quais você há de extrair o leite para seu bálsamo. Apenas ao chegar à velhice você nota como deu ouvidos a voz da natureza, dessa natureza que governa o mundo inteiro mediante o prazer: a mesma vida que tem seu auge na velhice tem seu auge na sabedoria, no suave fulgor solar de uma constante alegria de espírito; ambas, a velhice e a sabedoria, você as encontra na mesma encosta da vida, assim quis a natureza. Então é chegado o momento, e não há por que se enraivecer de que a névoa da morte se aproxime. Em direção à luz – o seu último movimento; um grito jubiloso de conhecimento – o seu último som.


Aforismo 292 - Humano, demasiado humano, Friedrich Nietzsche