Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.
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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O (triste) caso do leitor brasileiro


Quem por aqui se aventure em se tornar um razoável conhecedor de literatura, terá inevitavelmente que se deparar com algumas das muitas dificuldades que encontrei. A primeira delas diz respeito à nossa própria literatura: as letras no Brasil, embora tivessem sua época de glória nacional sobretudo até pouco mais da metade do século XX, hoje estão quase completamente imersas em versões adolescentes de thrillers americanos ou em pastiches de literatura de verdade, nas figuras indeléveis dos senhores Coelho e Veríssimo. A própria expressão "literatura de verdade" soa esquisito entre nós: quem poderia dizer o que é de fato esse "de verdade" literário? No Brasil, é sempre mais fácil reunir sob o mesmo quesito, ou na mesma estante, as obras monumentais de um Dostoiévski e as incursões ginasianas de escritores ditos teens. Se é verdade que sem um critério de avaliação que seja melhor do que os oferecidos pelas livrarias nenhuma esperança pode haver para a cultura superior, deve ser irresistível pensar que ao brasileiro é oferecida uma ausência de critério exatamente para destruir-lhe a capacidade crítica.

E as livrarias tem papel imprescindível nessa destruição do senso de medida literário. A divisão entre livros para um público segundo a faixa etária soa ofensivo a obras de grande peso, como quando os livros de J. R. R. Tolkien são postos entre os infanto-juvenis ou quando se encontra assustado o diário da Surfistinha entre os clássicos da literatura brasileira. Essa divisão, meramente comercial, é bom que se diga, não deveria ter maiores impactos em quem resolve se educar literariamente. Todo o apaixonado por livros, que os tenha no mínimo que seja em sua casa, já os dispôs de uma certa forma, em uma certa ordem própria, isso quando há a preocupação de os organizar. Em uma livraria não é diferente. Mas os padrões de mercado não deveriam, vale repetir, ter impacto sobre nossa forma de educação para as letras: isso, porém, não seria mais provável de acontecer em um lugar onde se perdeu, com o tempo ou por ação planejada, os critérios de avaliação estéticos. Se em terra de cego quem tem olho é rei, aquele capaz de encontrar e diferenciar a beleza da sua imersão fantasmagórica consentida por entre a feiura generalizada não só encontrará juntamente a beleza de sua própria alma, mas a riqueza e o sentido real de ser humano.

Contudo, não é apenas quanto à classificação que as livrarias exercem influência sobre o gosto literário: pela própria demanda econômica que diz respeito ao mercado editorial e de venda de livros, há clara distonia de oferta de obras, nacionais e estrangeiras. O primeiro grande entrave ao público mais amplo é que os livros serão lidos por aqui à medida que sejam traduzidos. As sessões de livros importados, em língua original, são ramo apreciado pelos poucos que se sentem dispostos a aperfeiçoar um segundo idioma pela leitura. Diminuído assim o seu acesso, fica-se à cargo do que as editoras se acreditam interessadas em publicar pelo interesse que, supostamente, o público demonstraria em consumir. As ondas inconstantes do gosto popular são, ao mesmo tempo, determinadas e determinantes para o que se põe nas prateleiras das livrarias. Essa dialética de interesses, no fim das contas, tende a produzir a distonia de que falava: de muito menor interesse e apreço de nossa parte, a literatura brasileira encontra-se reduzida em sua oferta, quando se tem sempre com mais facilidade um novo lançamento estrangeiro antes que uma obra valorosa em nossas letras, como nas tentativas que se pode fazer de procurar as obras de Lima Barreto. Isso mesmo dito de um dos mais conhecidos de nossos autores: o que não se chegaria a dizer de um José Geraldo Vieira, grande tradutor de Dostoiévski e brilhante escritor, inexistente em grande parte do acervo livreiro atual?

Em alguma medida, os livreiros tem razão: literatura brasileira não vende. De interesse quase restrito a acadêmicos e estudiosos, os autores brasileiros chegam a ser desconhecidos do grande público, que muitas vezes não saberia dizer-lhes nem o valor, que dirá os nomes! As escolas são, em boa medida, uma causa provável dessa ojeriza que o público brasileiro sente por sua literatura. Incentivando os mais jovens ao trato com obras de peso como Machado de Assis ou Guimarães Rosa, em vista não de lhes extrair a experiência poética ou existencial, mas tão-somente em vista de aspectos sócio-políticos ali presentes ou do imaginário do autor, que se vai criticado enquanto primitivo ou folclórico, alguns outros louvados porque não possuem mitos, mas tecem a realidade nua e crua, o aluno chega a suspeitar de que literatura brasileira é mesmo isto, objeto de constante estudo e análise acadêmica e escolar, e nada além disso. Saído da escola como quem sai de um sistema prisional, essa pobre alma não vê graça alguma em voltar ao território estranho das letras de sua língua mãe.

Mas há, não obstante, uma culpa pertencente aos próprios escritores: as histórias são quase sempre desinteressantes, ou muito remotamente atraentes, a exigirem do leitor nacional uma dada postura de espírito que tem de ser similar àquela da região em que se passa. Quem já sentiu na pele a linguagem de Guimarães Rosa a beirar o intragável sabe que o esforço de regionalizar as letras pode ter um sentido inverso ao pretendido: pode levá-lo a se regionalizar em seu mundo, limitando o alcance de sua obra. Mas o esforço para ler Guimarães não é diferente, em certa medida, daquele que se tem para ler Machado de Assis, ainda que por motivo diverso: a linguagem de Machado não é propositalmente regional, mas é distante de nós. No fundo, nós é que nos distanciamos de seu valor. A riqueza literária de Machado chegou a ser incomparável em relação ao que veio depois. O autor de Dom Casmurro é, para muitos e para mim, nosso grande escritor. Mas como chegamos a estar assim tão afastados dele? Como poderíamos no recusar a uma formação pelas letras machadianas, quando até hoje os anglo-saxões se formam por Shakespeare? O erro não estaria em nós, que muito pouco valorizamos o idioma e sua beleza, que já perdemos a sonoridade da língua, sua flexibilidade e ambiguidade, as inúmeras possibilidades que desencadeia e que já estão em grande parte exercidas pelos nossos grandes escritores? Não deveríamos, por isso, nos aproximar cada vez mais de Machado e dos outros ao invés de nos distanciarmos? A responsabilidade dos autores em trazer como enredo histórias pouco interessantes, em uma forma de dizer lapidar, se mistura ao pouco interesse que alimentamos hoje em exercitar essa mesma forma de dizer que não só nos aproximaria deles como de nós mesmos, na pouca graça que se vê em tais enredos, tirados de nossa própria existência. A literatura é quase sempre reflexo da sociedade em que nasce - talvez sejamos isso mesmo: desinteressantes ainda que virtuoses na linguagem. O mais terrível é que parecemos estar nos distanciando também desta virtuosidade.

O pouco interesse que a literatura brasileira desencadeia em nós é desequilibrado constantemente pelo teor de profundo interesse que nos comove à leitura as obras estrangeiras. Nomes como Shakespeare, Goethe, Dostoiévski, Proust, Garcia Marques e Pessoa, ou os menos clássicos, embora não menos vendáveis por seu interesse, Rowling, Tolkien, Martin, Meyer, também Sparks, Roth, Green. Uma rápida procura pelos mais vendidos por aqui põe, ao lado destes estrangeiros, a "variedade de interesses" literários do brasileiro, que vai de Isabela Freitas e outros autores teens até os nomes mais conhecidos de Coelho, Veríssimo e dos recém-falecidos Rubem Alves e Ubaldo Ribeiro, que figuram nas listas junto aos nada literários Augusto Cury, Marcelo Rossi e Edir Macedo. Tudo bem que se chegue mesmo a não ver sentido algum em gastar alguns dias com a leitura de A MoreninhaCaetés ou Perto do Coração Selvagem. Que se entenda pedante as elucubrações de Veredas ou o enciclopedismo de A Ladeira da Memória, para alguns até mesmo sem razão de ser um morto recontar sua vida como em Memórias Póstumas. Mas a lista daqueles por quem os jovens leitores se interessam no Brasil - e digo "jovens" em sentido figurado, para contemplar até mesmo os de idade madura que, em menor número de leitores em relação aos de menos idade, segundo pesquisa recente, são por isso mesmo ainda juvenis em uma prática para a qual deveriam "amadurecer" - não chega a trazer senão uma ausência completa dos clássicos mencionados, com alguma exceção do já clássico O Pequeno Príncipe, que atingiu incríveis vendagens nos últimos anos. Em outras palavras, o que se vê entre nós não é a recusa de nossos clássicos, chatos e pedantes, pelos clássicos estrangeiros: estes são igualmente ignorados pelo público, ainda lidos a não ser pelos mesmos acadêmicos que consomem nossa literatura, chata e pedante. Os clássicos, aqui, é matéria de estudo, não de formação.

O problema que parecia tender em boa parte às instituições, como livrarias e escolas, ganha aqui uma nova dinâmica de realização. O que se percebe é um ciclo vicioso que impede os novos leitores de alcançarem juízos de valor sobre as obras literárias que leem e lerão e, por isso mesmo, influencia de certa forma o mercado editorial e livreiro, encerrando o ciclo nas escolas que, talvez tentando começar um processo diferente, não vê muita oportunidade na escassa oferta das obras fundamentais, alienando com isso seus alunos. Pode-se, no entanto, entender este círculo vicioso, tal como ele se dá na cultura em geral, como se iniciasse no papel que as escolas atribuem ao valor da literatura e aos mecanismos que viabilizam o primeiro acesso dos alunos aos livros. Não é, de modo algum, enquanto objeto de estudo que a obra literária deve ser enfocada nas primeiras idades, e sim como expressividade existencial, como elaboração, pela linguagem, de vivências e conflitos a que cada um de nós está sujeito, e com a qual se pode mesmo aprender a dizer o que se passa conosco. As letras, como objeto de estudo, devem ser prioridade do período universitário. O aluno do ensino fundamental e médio precisa conhecer, antes, a funcionalidade da linguagem poética e imaginária, de que a literatura é um veículo comum e amplo. Ler a literatura brasileira como um repositório das vivências e dos conflitos a que estamos lançados em solo pátrio é abrir-se para a dinâmica que nos constitui mais propriamente. As letras brasileiras são a melhor forma de nos conhecermos, e recusá-la pelo estrangeiro é não querer ter de se olhar ao espelho.

Não poderia negar, contudo, que tenha de haver um convívio virtuoso, e não alienante, com a literatura de outros povos. Enquanto atraente por ser, em certa medida, diferente de nós, ofertando-nos tipos humanos que destoam da mesquinhez e vilania que quase sempre encontramos em nós e pela vizinhança, as letras estrangeiras nos servem para criar exatamente o sentimento de estranheza que deve nos incomodar a querer mudar. Sem isso, olharíamos o mundo apenas pela ótica estreita e caipira de um provincianismo que beira o esquecimento de si, e as consequentes soberba e pequenez moral que todo esquecimento põe em marcha. A literatura é remédio para o autoconhecimento, mas em uma medida que hoje parece haver se perdido, seja porque não se lê mais em vista de se olhar ao espelho, seja porque são muito poucos os espelhos produzidos que satisfazem a transparência apropriada para nos enxergarmos com o máximo de nitidez possível. São a estes que chamei acima de "literatura de verdade": se em uma escala menor a medida da "verdade" parece dizer respeito a quem lê, no âmbito mais elevado da crítica literária não é possível que se possa continuar a deixar ao sabor da escola, do mercado e do leitor a alienação de valores que põe lado a lado Machado de Assis e Veríssimo, Tolkien e Meyer, Shakespeare e Sparks. A continuar assim, já não haverá mais espelhos: onde todos são cegos, não há quem possa enxergar um palmo à frente. Se o público continuar a neglicenciar os critérios de avaliação que diferenciam aqueles pares em larga escala, não pode haver esperança de que algum dia as letras voltarão a servir para o nosso desenvolvimento, como pessoa e como nação.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A constância da transitoriedade da vida


Panta hei, dizia Heráclito: tudo flui. Talvez ele mesmo não tivesse usado essas palavras, que seus admiradores e detratores se lhe referiam enquanto uma síntese do seu pensamento. Talvez não seja senão mais um daqueles casos em que se procura resumir a grandiosidade de um homem em poucas palavras, um resumo que quase nunca corresponde ao seu valor devido. A questão é que sendo a percepção de Heráclito sobre a transitoriedade das coisas desse mundo uma de suas grandes anunciações, é pouco honroso encerrá-lo como apóstolo do devir, ele que procurou mostrar que em meio à transitoriedade das coisas deve o homem ater-se ao mais importante: ao que seria a razão de ser de toda mudança e de todo fluxo, quer dizer, à 'razão'. Eis o ponto primordial da sabedoria de Heráclito: se tudo neste mundo é transitório e inconstante, atenha-se ao lógos, à razão de ser das coisas desse mundo, à razão de ser de nossa própria existência. Sua alma é capaz de lhe mostrar esse caminho, para evitar que nos percamos no vir a ser infindo, para nos fazer ver que é na razão que a vida humana pode chegar a se realizar com valor. Deixar seguir o curso dos rios, que nunca é o mesmo, e com isso nunca ser o mesmo é naufragar em meio à inconstância do mundo, é caminhar sonâmbulo como se pudesse ver e ouvir as coisas como são, mas com isso perder-se em fragmentos, em instantes, em afluentes. Só aquele que ausculta o lógos está em vigília: sua vida não se perde, mas se encontra no que há de mais profundo - a constância de si.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Assim caminha a humanidade...


Quando Sócrates dizia que "virtude é conhecimento" estava enunciando um principio básico da finalidade última da ação humana: para agir corretamente é preciso ter acesso às informações que lhe dizem respeito. A liberdade no bem agir depende dos dados disponíveis para o homem ponderar a decisão mais acertada, e não poucos são os que acreditam que vivemos em uma época de luzes, livres como nunca, porque temos hoje mais acesso a informações. A que informações? Acreditamos mesmo que nos serão dadas todas as informações importantes para nossa decisão acertada? Não parece, antes, que se faz exatamente um acerto prévio do que são consideradas informações importantes, para levar os homens a decidirem o que querem exatamente aqueles que selecionam o que é importante? A atual situação dos meios de informação nos deixa com uma responsabilidade acachapante, muito pouco perceptível para quem nunca se deu ao trabalho de ir procurar as informações mais justas: o homem comum é deixado à sua própria sorte, dividido entre ter de ganhar a vida com trabalho e estudo, e ter ainda de procurar saber se o que está sendo dito por aí é de fato como se diz. Não me espanta que a maior parte da população, atarefada com sua sobrevivência, deixe o trabalho de se informar para os jornais e a televisão, deixando nas mãos de certas criaturas desconhecidas, ocultas por trás das redações, a responsabilidade de decidirem por elas. Imersas em conquistar um lugar ao sol, ou apenas um dinheiro qualquer ao fim do mês, as almas humanas seguem alienadas daquilo mesmo que as torna humanas, quer dizer, o senso de responsabilidade pelas suas decisões. Nesse ponto estão de acordo a doutrina cristã e o pensamento ateu de Sartre, além do sistema jurídico de que dispomos, para dar um exemplo laico. Antes de estar no trabalho e na luta pela sobrevivência, como gostaria o materialismo de Marx, a formação do homem está na sua consciência decisória, a partir da valoração que faz de si e do mundo que o cerca, e sem a qual pode-se chegar a ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma. Ainda assim, pensa o homem comum: "não tenho tempo para pensar!" Esse paradoxo flagrante é tão-somente um eco de outro, bem mais profundo, muito próximo da formulação que o pai da filosofia havia dado a partir da frase que trouxemos no início: se "virtude é conhecimento", então "ninguém comete o mal senão por ignorância", e com isso entendemos melhor a miséria de nossos dias, em que as pessoas preferem ser ignorantes, mesmo que isso lhes custe a existência. Afinal, para que se preocupar com o que acontece? Não é muito mais fácil deixar a vida levar, ouvindo o que se diz por aí? Essa coisa de procurar saber e pensar é coisa de desocupado, há uma vida para ganhar lá fora! Não foi o próprio Sócrates quem disse "só sei que nada sei"? Então, deixa a coisa assim mesmo que se melhorar estraga. De minha parte, faço coro com Lulu Santos: "assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade...", com uma única ressalva: as formigas não fazem senão o que lhes é natural.

domingo, 24 de março de 2013

O vestido das noivas nossas


A morte como espetáculo, como especulação sem sentido, como banalidade. Os sucessivos e recentes casos de morte incisivamente (noticiados?) cobertos pela televisão mostram que Nelson Rodrigues não estava de todo errado quando tratou, em seu palco, a morte como espetáculo banal. Seja no caso da jovem (e milionária) Richthofen, ou da pequena (e indefesa) Nardoni, ou os mais recentes, da srta. Samudio e do sr. Matsunaga, o que há entre todos eles, além das dezenas de outras mortes vistas ou de ouvir falar no cotidiano das comunidades e ruas cariocas e paulistas, é a morte considerada como solução: solução para o amor, para o dinheiro, para o estresse ou para a traição, em cada caso a vida é tida como incômoda, como pedra no caminho - sim, como uma pedra que pode ser chutada ao longe se insiste e persiste em incomodar. Mas uma pedra não tem vida, e de fato é essa a conclusão: a vida é tão pouco importante para nossa sociedade que mais vale diamantes e outras pedras. Afinal, perguntaria um típico tupiniquim moderno, que há de tão diferente assim entre homens e pedras? Uma defesa new age da igualdade entre todos os seres, com uma leve dose de ofensiva indelicadeza em relação ao homem (esse vírus que corrompe e destrói toda a ordem natural), é a tônica do pensamento mais ignorante, e isso em um duplo sentido: porque ignora a vida do outro e a sua própria como importantes e porque, ao ignorar o primeiro, se torna um típico ignorante. Há, e parece que é preciso dizê-lo novamente e outra vez ainda, uma clara diferença entre pedras e homens, uma diferença que, se não nos torna superiores em si mesma, é o primeiro passo para quem desejar superar as mazelas atuais. Tomar consciência, isso uma pedra não pode fazer. Decidir segundo o que vai na consciência, isso uma pedra gostaria muito. Mas se ela não pode fazê-lo, se não lhe cabe decisões pautadas por uma percepção, de si mesma e do todo da realidade que lhe cerca, então só aqui já o espírito de nossa época nos parece insano. Se isso fosse tudo!... O fato de haver pedras no caminho, já dizia Drummond, é apenas o fato de que há uma pedra no meio caminho - e diria mesmo, sempre haverão, para a vida de minhas retinas tão fatigadas, pedras no caminho. Mas que direito temos de lançar fora tais pedras? Que direito há de tratarmos outros transeuntes no caminho como pedras? O niilismo de nosso tempo, tão bem retratado já desde a filosofia de Nietzsche, alcançou seu apogeu nas modas existencialistas e feministas, no absurdo de Camus e dos influxos linguísticos de Derrida. Tudo isso contaminou o solo brasileiro, que viu intensificar ainda mais aquilo que 22, o movimento par excellence da ausência de normas e padrões tradicionais na arte, simbolizou: seu ingresso, diga-se, demasiado tardio, na modernidade. Só na arte? Não há nada que ocorra na vida social que já não esteja antes fulgurante na sua literatura. Nelson é disso testemunha. Se o apelo à modernidade na arte foi a atmosfera em meio à qual nasceu seu teatro, a vida que seguiu retradada nos palcos, e que hoje vale a pena ver de novo, como Vestido de Noiva, é a vida banal, fugaz e inútil - não de si mesmo apenas, mas sobretudo do outro. Matava-se nos palcos por amor, por dinheiro, por traição, e hoje por isso e por estresse ou dor de ouvido. Pouco importa. Se o inferno são os outros, como Sartre encenava, então que se dane os outros. Matar todos, exterminar o vírus que consome a perfeição das ruas, das casas e de nossas camas: eis o remédio para uma sociedade de pedras. E não se tornaria menos cômico, se não fosse trágico, ver que uma pedra como o crack tem colocado em evidência todo esse espetáculo, dos palcos para a vida.

domingo, 10 de março de 2013

Deusas e Mulheres


Costuma-se entender a mitologia dos gregos como fruto do seu espírito de síntese - quer dizer, como a história do modo pelo qual os gregos absorveram os deuses outros de cidades conquistadas e lhes transformaram as notícias a ponto de ilustrarem aspectos próprios à sua vivência e personalidade. Nesse sentido, o catálogo que a Grécia nos oferecera acerca dos aspectos humanos tornou-se um legado imprescindível para a formação do imaginário de possibilidades humanas, tendo em vista que nenhuma outra cultura e civilização se debruçou com maior afinco e sagacidade sobre o espírito humano que os gregos.
São as deusas olímpicas principais, Hera, Atenas, Ártemis e Afrodite, um pequeno, mas de nenhum modo insuficiente, catálogo de tipos humanos femininos, ou antes, de quatro aspectos de manifestação do feminino em sua natureza particular. Na medida em que os helenos agruparam sua forma de compreender a mulher nessas quatro divindades supremas, podemos observá-las como projetos de síntese de potencialidades femininas. Vejamos, pois, o que os gregos nos têm a dizer sobre tais potencialidades.

Afrodite

É a deusa do amor a mais selvagem das divindades, ligada ao apelo e instinto sexual e à sua sacralidade. Com Afrodite, o grego tentou sintetizar a imagem ou o aspecto animalesco do desejo sexual feminino, sua inevitável influência sobre o homem, com as artimanhas de sedução, os recursos espirituais do amor, próprios da mulher. O que ela exalta, inspira e protege é o amor físico e a união carnal, e nesse sentido, seu aspecto de verdadeira senhora das feras, que infunde desejo nos homens e faz até Zeus perder a razão pode servir como expressão religiosa da incrível força sexual que atropela, inexoravelmente, bestas, homens e deuses. Não se deixa de entrever aqui o tipo de mulher fatal, disposta ao prazer a qualquer custo, disposta ainda a usufruir de tal prazer como poder, como meio de dominação, como auto-afirmação. O caráter de certo modo selvagem de Afrodite denuncia a pecepção que tinha o grego desse tipo de disposição feminina: inevitável por um lado e, talvez por esse motivo, baixa e desumana, por outro. É ilustrativo desse aspecto a cena em que Hefesto, seu marido, a captura ao lado do amante Ares e a toma por amostra de uma união vergonhosa. Definitivamente, Afrodite não participa da possibilidade de ser fiel a homem qualquer.

Hera

A esposa de Zeus sintetiza, para o grego, a percepção de uma dimensão feminina própria à fertilidade e sacralidade do matrimônio. Hera é a deusa por excelência do casamento, e por ele sofre suas mazelas e vê usufruir seus prazeres. Tanto os prazeres quanto as mazelas se devem ao marido, Zeus, e seu ímpeto por assim dizer acasalador, que tendo se unido a uma mulher não se vê irrefreável frente a outras. Os percalsos que sofre a esposa suprema, desde agressões físicas até o vexame público, em nada lhe demovem da ideia do matrimônio. Vê-se a todo momento Hera sustentando sua posição de mulher, de esposa, de senhora, e nesta posição ela repreende o marido, na medida em que lhe consente os abusos, mas acima de tudo se pôe em ofensiva contra as amantes, a expressão maior de um tipo de mulher que cede aos caprichos masculinos sem se importar com o aspecto familiar em que tal homem se vê inserido. Por ser a imagem típica da união entre um deus fecundador da tempestade e a terra-mãe, Hera deixa-nos entrever o caráter da mulher que reconhece a fraqueza masculina e a supera em favor da união que produz a vida, em favor da família e do casamento que é o símbolo dessa produção.

Ártemis

Considerada a senhora das feras, Ártemis é a síntese da bestialidade e da graciosidade femininas. A mais complexa e contraditória das deusas, devido justamente à misteriosa confluência de dois aspectos por assim dizer antagônicos da alma feminina em sua própria divindade, Ártemis representa a força independente da mulher, vinculada ao seu apelo mais radical: a castidade por excelência. Sua virgindade é tomada entre gregos ora como uma libertação do jugo matrimonial, de que padecem Hera e Afrodite, ora como uma sua decisiva indiferença em relação às coisas do amor. É bastante conhecida, neste ponto, sua frigidez enquanto mulher, o que se refletia no ódio que nutria francamente por Afrodite. No entanto, e dentro de sua simbologia contraditória, há inúmeros sinais em Ártemis de uma deusa-mãe, cuidadora dos jovens e das donzelas no parto. Era a um só tempo padroeira dos caçadores e das moças casadouras, mas em ambos os casos, era louvada e reverenciada pelo caráter de independência próprio à vida selvagem. A mulher do tipo de Ártemis está deixada em sua selvagem solidão feminina, que muito pouco se faz compreendida e menos ainda se vê interessada em manter relações com o sexo oposto, senão nos casos em que possa desempenhar claro papel de mãe sem o ser de verdade. O casamento, não sendo próprio da vida selvagem e natural, não poderia lhe pertencer.

Atena

Temos, por fim, a deusa mais importante e mais reverenciada pelos gregos, depois de Hera. Atena tem como que sintetizadas em sua figura mítica o princípio da independência selvagem feminina, como o foi Ártemis, sem negar uma relação com o sexo oposto, não regida pelo matrimônio, como em Hera, o que faria por contrariar seu princípio de independência, nem pela sedução, como em Afrodite, mas por situações de aprendizagem e conflito. Considerando os homens como aqueles que, por excelência, estão entregues ao combate e ao saber, Atena se vê investida de uma personalidade capaz de se equiparar ao masculino, com a exceção do casamento, pondo-se claramente como força de combate marcial (ela vence Ares e admira Héracles) e intelectual. Neste último caso, e talvez o seu mais significativo, Atena é tida por amiga da sabedoria e da habilidade intelectual, e chega a ter Odisseu em grande admiração. Por não ter sido gerada de mãe, construiu forte laço de união com seu pai, Zeus, de quem sempre estava ao lado - seu nascimento deu-se diretamente da cabeça de Zeus, que lhe deu a métis, a sabedoria prática, como seu maior atributo. É nela que se revelam a complexidade e a unidade da sabedoria técnica grega, que fez a sociedade contituir-se e se aperfeiçoar. Por tudo isso, pode-se perceber porque razão Atena era tida em alta conta pelos gregos, sobretudo pelos homens, que lhe temiam ao mesmo tempo que lhe reverenciavam o saber e a habilidade marcial, suas próprias habilidades. E certamente a tinham em alta conta por lhes assemelhar tanto, no que Atena se torna para nós o tipo feminino exemplar da independência almejada pelo feminismo moderno.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Manifesto do homem - ou qualquer coisa que nos diz respeito




Se observamos o desenrolar da cultura humana, veremos que o homem, no que lhe cabe, encontra-se inexoravelmente vinculado ao lógos – à linguagem e à capacidade racional de construí-la – e é nele que sua essência se dá melhor a conhecer. Naturalmente, essa condição é falha, mas por ser o único modo que temos de nos tornarmos humanos, recusá-la é abdicar de nossa natureza, é recusar o que nos compete nesta vida: em suma, é deixar que nossa existência acabe por sucumbir ao mesmo papel que uma pedra ou uma vaca desempenham no mundo – o de servir ao bel-prazer de quem tem consciência para delas usufruírem. Dito de outro modo: aquele que despreza o caminho do aperfeiçoamento de si mesmo por meio da linguagem, servirá como pasto ou ovelha, mas nunca como pastor.
É fácil constatar esta verdade, sobretudo no modo como hoje lidamos com nossas opiniões. Qualquer um poderia rapidamente assentir que a ciência hoje é uma autoridade em muitos aspectos, por vezes determinantes para a maneira como levamos nossas vidas. Vemos a autoridade científica ditar aquilo que comemos ou devemos comer, onde e como devemos residir, o que fazer para mantermos a saúde do corpo e do espírito. Mas de onde procede tal autoridade? Não sem demora, inúmeros protestos seriam feitos se, por exemplo, certa casta religiosa, ou política, determinasse a necessidade de comer ou não um alimento qualquer. Mas poderíamos conceber um protesto desse tipo para uma orientação científica? Alguém se disporia a protestar contra a sugestão de que carne vermelha faz mal à saúde? Na verdade, tomamos as pesquisas veiculadas pelos meios de informação como uma verdade, como um fato que deve ser seguido sem o mínimo de receio ou dúvida, e isso porque o modo como são divulgadas nos sugerem exatamente esta sua condição de serem como que impassíveis de dúvidas. Mas como? Não nasceu a ciência moderna exatamente com a dúvida? De que maneira chegamos a aceitar como verdade indubitável aquilo que se dispôs, de certa forma, a sanar dúvidas de uma forma meramente provável? Há, sem dúvidas, alguma coisa errada.
Mas quem hoje se preocuparia em pensar sobre isso – quem hoje ainda se preocupa em pensar? A situação na qual vivemos é fruto direto da desmotivação que sentimos em pensar sobre nós mesmos, sobre o modo como devemos levar nossa vida e o que devemos fazer para melhor usufruirmos dela. Formamos, hoje mais que nunca, nossas opiniões como se as comprássemos de jornais e revistas, como se paga a uma prostituta pelo prazer sem esforço – numa bela imagem criada por Wagner para descrever a degradação do homem moderno. É mais cômodo procurarmos a opinião de outrem sobre aquilo que desejamos saber, que nos havermos com a dificuldade de pensarmos por nós mesmos. Nunca, em nenhuma outra época, a mídia teve tanta força quanto em nossos dias, oferecendo opiniões e informações como um cafetão oferece suas crias. Nunca, em nenhuma outra época, a leitura se degradou a ponto de embotar o pensamento com opiniões deveras unânimes e igualitárias, como as veiculadas pelos jornais e pelas revistas. A ciência tem sua autoridade nascida desse estado de coisas, e é um tanto engraçado perceber de que modo a filosofia é aventada em nossos dias, em todo lugar, como uma espécie de postura crítica frente ao domínio autoritário – de quem mesmo?
Mero engano. Não há nada de crítico na filosofia praticada e divulgada hoje, e por isso ela é praticada e divulgada sem complicações. O homem se rebaixou a não querer pensar: livros de auto-ajuda instruem e ensinam, sem complicações; professores transferem o conteúdo de suas disciplinas como blocos de conhecimento, de todo coerentes e condizentes com a realidade do mundo; os meios de comunicação agridem todo aquele que deseja pensar por si mesmo, já que sua intenção é formar de modo unânime a ‘opinião pública’. E não é essa ‘opinião pública’ formada exatamente pela falta de leitura do homem moderno – quer dizer, pela falta de uma leitura crítica e engajada na busca pelo próprio conhecimento? O que dizer da nossa linguagem, a cada dia mais empobrecida? Que português ousamos falar – mais ainda, escrever, que já não consegue entender as obras de Machado? Quem ainda se dispõem a gastar seu tempo em frente a um livro que não seja o último lançamento, que não veja na leitura um fardo, mas um caminho para se desenvolver? Que cristão pode se dizer um leitor da Bíblia? Que comunista poderia bater no peito e anunciar “eu li Marx”? Quem chegaria à conclusão de que sua vida é muito importante, e ao invés de deixar-se levar por ela, tomaria como guia a necessidade de vivê-la da melhor maneira, não seguindo a opinião alheia, mas a sua própria razão?
Mas um ano se encerra, outro se inicia. E nada haverá de diferente sob o sol, se não deixarmos nossa própria alma falar mais alto. Se não compreendermos a verdade que a filosofia nos veio anunciar: que aquele que não vive uma vida refletida não é digno de viver.

domingo, 6 de maio de 2012

Aborto e outras mortes desumanas...


Um ser humano encontrado em uma floresta perdido, por volta dos seus oito ou nove anos, sem ter nenhum tipo de comunicação anterior com sociedades, sem ter aprendido a falar e a pensar como nós, desprovido de cidadania, desprotegido em meio à selva da vida. É justo matar este ser a partir da opinião de que ele não é "humano"? O que esse "humano" quer dizer? Ausência de pleno desenvolvimento, em um indivíduo de uma determinada espécie, das capacidades possíveis àquela espécie é razão para não classificá-lo como a ela pertencente? Uma criança ou um idoso profudamente debilitado não são mais humanos porque não dotados da capacidade de exercerem plenamente suas possibilidades? É razão suficiente para matar alguém que ele ainda não ou não mais apresente as propriedades plenas do "humano"? Qualquer tentativa de justificar a morte de um feto ainda não barriga da mãe esbarra na mesma consideração.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O mundo por trás do mundo


Existe no mundo cultural - quer dizer: no âmbito da divulgação e produção de ideias veiculadas nacional e mundialmente, o que se poderia chamar de duas camadas de opiniões, inegavelmente interrelacionadas, e que em determinadas épocas se interpõem e se chocam; em outras, colaboram incessantemente. Abusando dos termos próprios às religiões e sociedades secretas, poderíamos dizer que uma camada seria esotérica - ou seja, aquela em que as ideias e opiniões circulantes são condizentes com os fatos e as intenções reais de quem os analisa ou realiza - enquanto a outra seria exotérica - disposta ao público em geral, veiculada massivamente, e que pode ter ou não relação fidedigna com a camada esotérica. Quer-se dizer com isso que no conjunto das opiniões que apreendemos na sociedade, algumas delas dizem respeito de fato ao que acontece, enquanto outras são apenas modos diferentes de se dizer, eufemística e adulatoriamente, o que de fato acontece. Como alguém que prega aos quatro ventos aquilo que ele mesmo está longe de praticar, o mundo das ideias culturais vive uma esquizofrenia aguda. Se em determinadas épocas a relação entre as duas camadas poderia se dar por vezes de modo inconsciente ou não planejado, hoje se percebe uma crescente capacidade de articulação intencional entre as duas, e o que é pior: no sentido de fazer com que a camada exotérica veicule e apresente ideias e opiniões que distorcem propositalmente os aspectos escusos e esotéricos daquilo que tem acontecido de fato.
Para ilustrar o quadro atual, nada melhor do que perder alguns minutos de nosso precioso tempo frente à televisão: em qualquer telejornal brasileiro, o modo como as reportagens são escolhidas, editadas e veiculadas é já uma amostra daquilo que se poderia chamar a intenção exotérica de mostrar as notícias - enquanto aquilo que de fato acontece permanece nos bastidores: ou drasticamente recortado pelas edições, ou absurdamente negado enquanto digno de ser notícia. O caso Obama é exemplar, mas não é o único: as águas têm descido cachoeira abaixo, sem sequer serem compreendidas em todas as suas implicações pelo cidadão leigo em política. É preciso ter algum faro para linguagem tendenciosa e retórica, algum treino mais apurado em filosofia, para perceber que as imagens e frases ditas pelo aparelho de TV e jornais brasileiros não são uma denúncia do que tem acontecido, mas uma escolha certeira daquilo que querem que acreditemos ser o que de fato tem acontecido. Se nós, pobre mortais, não podemos participar do jogo esotérico do poder, sobra-nos a ressalva importante de avaliarmos que espécie de saber político pode ser apreendido pela confrontação das muitas notícias exotéricas. Mas um trabalho como esse, senão impossível de ser realizado pelo cidadão comum, deveria ser objeto de estudo constante daquele que aspira à filosofia, tal como Sócrates e Nietzsche nos ensinaram: a busca incansável pela verdade. Quem se habilitaria a uma missão como essa, em um país abandonado aos corvos? O Brasil carece de filósofos - porque nem sequer sabe o que isto quer dizer.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Preconceitos prejudiciosos e prejudiciais


Nieztsche dizia que o psicólogo tem de afastar a vista de si para enxergar - em outras palavras, afastar-se do eu imóvel e substancial para entender-se dialeticamente lançado ao movimento do mundo e das coisas à volta - do mundo e de nós mesmos, por certo, mas um movimento que esconde algo essencial, na verdade que o revela, a despeito do vir a ser eterno, ou por causa dele: o mundo do movimento e do ser-e-não-ser é em suma o mundo do ser no tempo, da essência no acidental, da forma no material. E todo psicólogo que se preze, ao olhar para o mundo e para o outro, tece sobre seu olhar as considerações mais inerentes à própria alma. Neste ponto, afastar-se de si é em suma encontrar-se no mundo. E é neste movimento que me encontro, e a ele tenho entregado o grosso das horas de meus dias. Mas não é isso um perder, um deixar de viver? A pergunta que deveria ser feita é esta - Há outra vida a ser vivida? Sócrates tinha razão, a despeito de Nietzsche.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tragédias esquecidas...




Lembro-me daquele fatídico 11 de setembro de 2001: estava na minha época de trabalho braçal, abrindo e fechando máquinas de xerox, trabalhando com um público sempre bastante educado e simpático (sic!), quando de uma hora para outra as televisões de todos os estabelecimentos da rua em que ficava a minha firma noticiavam a mesma tragédia. Meus olhos e os de todos, admirados como sempre diante da tela mais alienante do mundo, percebiam o fogo e o desespero em uma das torres do World Trade Center, e nos indagávamos que diabos de fato estava acontecendo. Sem que o meu pensamento pudesse corresponder muito bem às informações trazidas pelas janelas da minh'alma, a admiração tornou-se ainda mais tenebrosa ao ver outro avião chocar-se contra a segunda torre, em uma cena que provavelmente teria sido muito bem produzida pelo cinema americano. Não seria na verdade um muito bom filme a ser passado ao mesmo tempo em todos os canais da tv? Muito pouco provável. A cena, em toda a sua angústia, embora parecesse um filme de guerra, trazia ao mundo real os traços luxuriosos daquela fantasia própria da ficção. Mas por que estou a lembrar-me disso? Talvez porque estejamos bem próximos de "comemorar" 10 anos daquele dia fatídico. "Comemorar"- parece ser este mesmo o sentimento próprio à lembrança de uma tragédia. Mas nossa lembrança é deveras obtusa para outras tantas tragédias, que fazem aniversário em algum momento do qual não temos nenhuma vaga lembrança. Lembrar é um fenômeno tão interessante quanto o esquecer, e talvez devéssemos perguntar por que esquecemos certas tragédias, sociais e mesmo pessoais, com uma constância dificilmente percebida, a não ser que algo ou alguém nos faça sentir novamente aquela dor, aquela angústia. As cenas das torres em queda serão estes dias uma constante na telinha da tv, e poderíamos pensar que outras tantas 'torres' decaíram em nossa vida e na vida do país, para que pudéssemos de algum modo comemorá-las com as lágrimas, ou risos, devidas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Por um pensar concreto


Pensar concretamente não se dá por oposição ao pensar abstrato, nem mesmo no sentido de se apresentar enquanto um pensamento engessado, endurecido, imóvel. Pensar concretamente é tornar o pensamento o mais abrangente possível, o mais amplo e por isso o mais completo. Todas as possibilidades do humano se apresentam neste modo de pensar, toda a potência consciente do homem se atualiza. Deste modo, ele se realiza em um eterno movente, em um colher e rejeitar, em um conhecer e desconhecer, em um esclarecer e tornar obscuro. A lógica que reina no discurso e no pensamento concreto é uma dialética.
- Sim, mas então, concretamente, o que é o pensamento?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Prelúdio de um diálogo - Ou sobre a sensibilidade do insensível


Quando olhamos as fortes águas de uma cachoeira, a descerem abaixo ao encontro de outras tantas águas de um rio, as sensações que nos tomam são das mais diversas. Mas acima de tudo, olhamos para o movimento das águas e pensamos – as águas se movem. Todo aquele mover-se nos faz pensar na existência de alguma coisa que está para além da materialidade das águas em movimento, nos leva a tomar ciência de que há algo que se processa para além daquilo que podemos ver. A percepção da imaterialidade do movimento é em última instância a percepção de algo que pertence a uma outra natureza, que está aqui e que não se resume ao físico. O movimento é de outra ordem. A natureza do movimento é metafísica. Isto parece nos mostrar a existência de ao menos duas dimensões de natureza senão no mundo e nas coisas, ao menos em nós, que as percebemos. Ao menos em nós deve existir algo que transcende a própria fisiologia humana.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A vida refletida


Quando alguém se deixa incomodar pela indagação do sentido da vida, o seu existir se deixa ele também incomodar com a efemeridade do simples viver. E então já não se vive simplesmente, já não se deixa a vida seguir apenas pela necessidade de seguir, de viver - A vida perseguirá de um modo incômodo uma razão para se dar, e para ser. Uma vida assim incomodada não se deixa viver simplesmente. E então alguém poderia dizer que no fundo o que há é uma morte contínua da vida, um morrer constante pelo pensamento - ou será na verdade tudo isso o único modo de se realmente viver?

"Uma vida não examinada não merece ser vivida" - Sócrates

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O bom homem mau


Quando alguém chegou e disse "este pedaço de terra é meu!" iniciou-se então o processo de desigualdade entre os homens. Mas o bom selvagem de Rousseau tinha um problema - ele era bom por natureza. Alguém em nosso tempo poderia ainda acreditar que o homem seja bom por natureza? Ou antes - há alguma bondade ou maldade na natureza, deixada ela mesma em seu próprio desenrolar-se? Somos nós quem criamos o bom e o mau, nós nos tornamos devotados a um padrão de comportamento ao qual nos referimos. Nós criamos o homem - criamos a nós mesmos. E não haveria em tudo isso siginificativa 'maldade'? Ao contrário! O ato de modificarmos nossa natureza faz parte, como tendência inalienável, de nossa própria natureza. Somos algo entre as bestas e os deuses. Somos intermediários, indefinidos porque em constante definição de si, inconstantes porque em constante afirmação do que não pode se eternizar. E então se diria - isso tudo é bom, mau, ruim? Não há valoração na natureza. Somos isso - e nada além disso. Talvez esta certeza nos ajude a entender melhor para onde caminhamos. Talvez essa certeza não nos ajude em nada, e provoque em muitos um profundo niilismo incurável. Mas não podemos abrir mão da certeza. Afinal, ter certezas faz parte da nossa natureza humana, demasiadamente humana.

domingo, 14 de março de 2010

O dizer poético


O dito é a máxima expressão do que não se pode dizer. É a sua recusa em aceitar tal limite. É prever que nada pode nos impedir quando de fato a alma sente em si pulsar aquele fogo fátuo da vida eternizada em poucas, muito poucas palavras. Porque não se pode querer mais de tão pouco tempo. E mesmo assim insistimos. É claro, porque algo perdura ainda em meio a tudo isso. A chama parece não se afugentar tão displicentemente quanto muitos gostariam. A vida sempre encontra o seu meio. E para nós, nada substitui com maior vigor e pujança aquela sensação de eternidade na beleza – a poesia é somente e apenas o pulsar do tempo eternamente engrandecido por seres tão minúsculos e efêmeros.

E a beleza está aí. Neste sentimento consolador que move o poeta em harmonia com a canção mais insondável, escondida por trás do mundo, no mundo, aquela música que nos move e co-move a alma, os olhos, o pulso sanguíneo. E a sonoridade das palavras reunidas na poesia nos faz ouvir uma música diferente, diversa, quase mesmo inaudita se para tais palavras não estivermos munidos de bons ouvidos sensitivos. As imagens que afloram são cenas de um musical operístico, são fleches passados que a todo instante emergem e se entrelaçam no jogo imagético de ouvir a si mesmo e o mundo.

São nestes momentos sem dúvida que mais uma vez descobrimos não haver qualquer distinção entre homem e mundo. Pois a beleza está aí, sempre tão brilhantemente cantada pela mais vigorosa de todas as expressões artísticas de que o homem é capaz. São pelas palavras que o mundo torna-se aquele lunático espetáculo acima dos estábulos que tantas vezes ocorre aqui dentro de toda alma, por menos poética que ela seja.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Gritos ecoando... II


O desespero humano é assinalado por muitos artistas e pensadores como uma tendência inevitável do homem moderno, fruto direto da famosa "morte de Deus", provocada pela herança iluminista de uma Europa em plena efervescência econômico-cultural. O niilismo que atingiu as proporções mais espetaculares em nossa era, certamente em decorrência do caráter universal e globalizante da atividade cultural sob a égide do capitalismo, parece ter tomado a mente e o coração dos pobres humanos que caminham em direção não se sabe bem para onde, obrigando a religião e a arte, então consideradas fugas da crueza da verdade do real, os instrumentos por excelência da tentativa humana de transcender o sensível, a um apartheid da vida intelectual do homem comprometido com a "realidade" do mundo e com sua necessária miséria frente a ele. Mas o mesmo apóstolo deste niilismo em escala global foi o mesmo que se empenhou em mostrar que a arte podia sim, em sua intenção mais profunda, revelar a crueza da verdade do real, pois somente ela era capaz de afirmar a vida em toda a sua potencialidade, em toda a sua gratuidade. A arte era, para Nietzsche, a força soberana de afirmação da vida pela vida. A salvação da atividade artística encontrou na vida seu porto seguro, seu último reduto niilista. À religião, contudo, não coube tal sorte. Dificilmente um código religioso com tal ênfase (e existiram alguns) conseguiu tanta eficácia quanto sua companheira relegada. A questão talvez se justifique pelo simples fato de que uma religião sem deuses não poderia ser de fato uma religião. E em tempos de morte dos deuses transcendentes, as religiões como as conhecemos perderam seu sentido de salvação para o pensamento inquieto. Isso não impede, é claro, que existam outros tipos (grotescos, por sinal) de "religiões", cada qual com seus "deuses" específicos (veja, por exemplo, o interessante ato de fé dos "irmãos" no congresso, após receberem dinheiro suficiente para louvar a deus por mais alguns anos...)

A questão a ser posta aqui, entretanto, diz respeito a saber se de fato esta condição niilista a que o homem moderno se condenou pelo exercício de sua racionalidade não é antes propriamente humana, demasiadamente humana, inerente a nossa natureza e condição existencial. Pois se o absurdo da existência se revela pelo desnível que há entre a busca do homem pela unidade racional do mundo e a completa irracionalidade que ele encontra por trás de suas manifestações, onde a atitude transcendente, o salto, a escapatória desta angústia se dá sempre pela supressão de um dos lados em detrimento do outro, então a história do pensamento humano é a descrição sucessiva destas tentativas de escapar do absurdo, do niilismo a que fomos jogados por nós mesmos. Mas poderíamos de fato escapar desta encruzilhada permanente? O absurdo do salto transcendente em busca de uma solução para esta angústia retorna sempre e novamente, nos levando a indagar, juntamente com Camus – É possível ao homem conviver com o absurdo? Mas uma vez, qualquer tentativa de responder a este paradoxo seria um absurdo...
Pintura - O desespero, by Edvard Munch

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Gritos ecoando... I



O desespero que toma de assalto a alma do homem moderno é o sentimento que decorre daquela constatação fatal do resultado de sua ambição pelo conhecimento - ao final de seu percurso em busca da verdade o homem nada encontra de verdadeiro, e se angustia, se desespera, mergulhando no mais profundo niilismo, e ali nem Deus poderá salvá-lo: ele se afundou em sua mais completa impossibilidade de saber, e vilipendiado pela ânsia que sente de encontrar a verdade, destruiu todas as possibilidades de possuir um sentido para a sua vida. O homem desesperado impôs-se a angústia de ter assassinado Deus. A "morte de Deus" é o início da queda do homem. Podemos viver neste desespero constante?
A resposta é a solução para o enigma - mas quem a conhecerá? Melhor - quem a suportará?
Pintura - O grito, by Edvard Munch

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Metáfora da visão III



Em terra de cego, quem tem olho é rei!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um incômodo auditivo



Para que os dedos se disponham a traçar uma sinuosa harmonia entre palavras e conceitos tão distintos entre si, criando assim aquilo que chamamos de discurso, fala, é necessário que antes haja um pensamento que de fato coordene e (ainda que não se queira admitir) crie esta sinuosa harmonia, única possibilidade de comunicação entre os homens - sem esquecermos que gestos e imagens precisam igualmente de harmonia e coordenação para que sejam entendidos. Isso nos mostra, dentre outras muitas coisas, que o animal humano, como bem afirmavam os antigos, é e será sempre um animal que pensa, cuja existência se realiza plenamente por meio do pensar. E somente quando algo muito me inquieta, me angustia, é que o discurso se realiza, a fala cria corpo, e a manifestação de meus pensamentos, seja aqui ou onde for, torna-se possível.
Pois no fundo certos assuntos problemáticos tem me incomodado deveras, e se percebo que de fato tais preocupações não estão na boca do povo, isso me revela apenas que sou um ser imerso em mim mesmo, criador de casos e de dores de cabeça pouco ou nunca necessárias, já que tudo corre a mil maravilhas no mundo e neste pequeno país latino-americano. Poderia ser que eu supusesse a maioria esmagadora das pessoas como seres extremamente despreocupados, que não param para pensar nestes problemas, haja vista já os possuírem às dezenas, por certo bem mais importantes que esses - mas não, como imaginar uma coisa dessas de mais de 6 bilhões de seres humanos? Se alguém está errado, incomodado, enlouquecido com o descaso do mundo pelo mundo - esse alguém que se interne, ou pense que lhe seja melhor talvez fugir deste mundo, já que a hipótese de compactuar com esse descaso lhe passa longe da boca...
Mas diga lá, senhor incomodado, o que tanto assim o inquieta?
Se alguém atravessou estes desabafos e chegou até aqui, isso talvez seja um bom sinal: talvez existam ainda pessoas preocupados com as coisas. Porque se dependermos de salvar o planeta (e junto dele, a nós mesmos) com a economia e a política do jeito que ela se realiza hoje, é bem provável que meus netos não possam ter filhos, já que nem mesmo a garantia de sua própria existência estará assegurada. A lógica que impera no mercado e nas casas, nas assembleias e nos botequins dos bairros, é a lógica da destruição em larga escala de todos os recursos que o planeta pode produzir, antes mesmo dele poder produzi-los. A voracidade do lucro imediato lança essa questão para um futuro que a depender desta voracidade não existirá.
Até aqui muito já foi dito. Não são poucos aqueles que anunciam os problemas da produção econômica de nosso mundo globalizado, e hoje mais que em qualquer época. Contudo, apenas um grito incontido de um povo em desespero não poderá nunca ser ouvido, no sentido mesmo de ser compreendido - no máximo o susto e o espanto é que são provocados. Pois é como antes falava: os homens só podem de fato se comunicar por meio de uma linguagem bem articulada, ordenada - ou seja, através de palavras que anunciem pensamentos. Os brados estridentes das comunidades internacionais, de países e/ou de celebridades do show business, não podem se fazer ouvir atentamente pelas massas favorecidas que controlam o mundo usando seus dólares, porque grito por grito nem os dos comunistas sobreviveram. Essa moderna "aristocracia" burguesa só tem ouvidos para uma voz, aquele som imaterial e inumano que o dinheiro lucrativo suavemente vai ressoando em seus ouvidos, como um canto da sereia mais bela, e mais digna de ser louvada. Como impedir esse encanto com gritos tão grosseiros e bárbaros, se a voz melodiosa do lucro é bem mais serena, mais límpida, mais civilizada? Há que se falar de outra forma com seres tão "refinados"...
E caberia ao governo este papel. É a política a única capaz de fazer frente aos interesses privados em favor do bem de todos. E uma teoria política que se construísse em oposição ao modelo econômico vigente deveria buscar outros valores, outras vozes a que ouvir, para livrar-se daquele encanto da miríade capitalista. Mas onde encontrá-las? Onde se podem ouvir outras vozes que não esta?
Este é um grande problema - e um grande incômodo...

Ps: A Skol não teve nada a ver com isso, claro...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Polêmica?



Vamos (tentar) esquentar um pouquinho as coisas por aqui...
E ainda que eu pareça estar começando mais uma de minhas propostas devassas de expressão poética, o esquentar que se pretende fazer virá muito antes (espero) de um assunto que tem de algum modo se tornado uma polêmica nos lugares que frequento - qual seja, a eleição do Rio para sede das Olimpíadas de 2016. Isso porque para muitas pessoas, sobretudo aquelas preocupadas com a causa dos menos favorecidos e com a questão social de nosso país tão desigual, a vitória carioca parece ser um absurdo sem tamanho, já que a cidade muito pouco tem investido em saúde e educação, áreas sempre preteridas pela verba pública. Algumas chegaram mesmo a torcer contra a eleição do Rio. E a desilusão de estarem nas areias de Copacabana ao lado de uma multidão disposta a beber, cair, levantar, sustentando nos pés o samba e na boca o grito de alegria pela nossa vitória, foi tão amarga quanto uma manhã de dura ressaca depois de uma noitada daquelas. Mas isso me faz perguntar insistentemente - Será que a vitória de nossa cidade foi realmente a mais terrível consumação dos interesses do capital sobre os da sociedade, e que dela não podemos esperar nada senão mais miséria e desigualdade? Ou será que aqueles que se colocam contra o sistema econômico vigente (e sendo este o meu caso) precisam de fato recusar categoricamente esta excelente oportunidade de vermos mais uma vez o Rio como a grande capital cultural do país? Uma coisa nesta questão é certa: a vitória do Rio só possui potencialmente aquilo que dela nós poderemos fazer.
Qual a sua opinião? Se quiser opinar nesta 'polêmica', sinta-se à vontade. Afinal, a cidade (e a vitória) é de todos nós, impreterivelmente.