Por que estas pulsões ocêanicas?

Pois é verdade que se eu não havia sequer pensado sobre uma metáfora que ilustrasse com precisão poética e elegância filosófica - sim, com precisão poética e elegância filosófica! - aquilo que encontro frente ao espelho, este reflexo que se produz em minha consciência: ao pensar na força do mar, no impacto voraz das ondas sobre as rochas, no ímpeto por vezes desmedido e incontido de uma pulsão marítima, oceânica, encontro nessa visão a pintura natural de minha própria natureza. E talvez só me falte descobrir onde o pintor escondeu seus pincéis... Mas para quê? Não há em tudo isso significativa - perfeição?

***

A poesia é a capacidade de condensar em belos versos a riqueza experiencial de nossas impressões. Ela é a mais elevada forma de arte literária - na verdade, literatura só é arte se participa intrinsecamente da poesia.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Edison Curie de Nequete - A morte, a vida.


Foi uma perda que não causou grandes alardes... Afinal, esse é o destino de quem jaz esquecido pela sociedade. Mas embora o pouco tempo que me sobra, neste final de ano apressado, só me tenha permitido escrever sobre este mestre da palavra agora, sete dias após sua morte, a lembrança de sua amizade e de sua brilhante e não pouco controversa personalidade se faz presente, ainda que não queira, em cada poesia que escrevo. Edison Nequete foi um velho conhecido, e a história de nossos encontros e reencontros esteve como que entremeada de grandes confusões. O velho ranzinza que perturbava nossas brincadeiras na infância tornou-se um mestre oportuno para este jovem artista, que percorria as primeiras vielas da poesia e da prosa. Os gritos que defenestrava contra nós quando crianças e o terror que nos fazia sentir de sua pessoa haviam se transformado em admiração pelo grande saber artístico que ele aos poucos compartilhava comigo. E não o fazia à toa - a admiração recíproca que ele havia expressado ao ver aquele menino irritante tornar-se um artista era o motor da sua certeza em não estar jogando conversa fora. Ao contrário, conversar com ele, embora nunca podendo gastar tanto tempo quanto se desejava, era poder parar aquela rotineira roda da vida, e perceber que as coisas podem ainda nos surpreender. Como ao ouvir suas últimas palavras, em nossa última conversa - "o maior mistério para nós não é a possibilidade ou não da existência de Deus, mas de que modo a matéria veio a existir, e o que ela é afinal: isso sempre será o maior de todos os mistérios". De fato, ainda hoje aquele pensamento me acompanha, aquele thaumazeîn pelo insondável, aquela incerteza que nos faz pensar. E suas lições, embora tenham perdido a voz original do mestre, jamais serão perdidas.

In memorian (1926-2010)

Augusto Mathias

3 comentários:

Ricardo Rocha "woolf" disse...

Muito bom o post!!
Saudações!!

Anônimo disse...

Edison também era um amigo meu. Foi o maior gênio que conheci, e o mais renegado. O que é mais um grande desserviço para a cultura de nosso país. O final de Edison Nequete, do qual fui testemunha, só faz meu olhar para nossa sociedade tornar-se mais infeliz.

Gui Castro

Mathias de Alencar disse...

Endosso suas palavras, Gui, e pelo que presenciei no caso-Nequete, sou também obrigado a concordar com este seu sentimento... Uma lástima para um país com vocação à grandeza!